Os inimigos do literário

Em O mal de Montano, o narrador fala sobre os “inimigos do literário”. Em sua opinião, quem são os maiores inimigos do literário na literatura contemporânea?

Os diretores das editoras que já não são leitores de literatura e programam livros como se fossem camisas ou qualquer outro produto que se possa vender. Os escritores que, atentos a atender uma clientela imediata, buscam fórmulas prontas para seus livros e, além disso, renunciam a ser exigentes consigo mesmos. Os leitores – com estes ninguém se mete, como se fossem santos – que compram livros – lixo sobre o Santo Graal e outros romances de qualidade ínfima e, ainda assim, crêem que lêem.

Quem responde é Enrique Vila-Matas, em entrevista ao jornal Rascunho. O negrito é meu, porque tenho refletido sobre isso desde minha última coluna no Digestivo.

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2 Comments

  1. Renata Miloni
    Posted April 27, 2008 at 08:56 | Permalink

    Isso é maravilhoso. Uma entrevista com ele no Rascunho. Amei.

    Na História abreviada da literatura portátil, o senhor parte de uma idéia do poeta e crítico francês Paul Valéry, segundo a qual “o universo só existe no papel”. Como é sua vida “fora do papel”? Como é, como pensa, como vive o cidadão Enrique Vila-Matas? Ele é um prolongamento ou, ao contrário, um desmentido do escritor Enrique Vila-Matas?
    Dizem que “vivo dentro de minhas narrativas”. Se é assim, não me havia dado conta. Também dizem que me ocorrem sempre “coisas vilamatianas”, e nisso tenho de dar-lhes razão. Ontem, por exemplo, quando ia à agência do Correio de meu bairro, ao parar num semáforo para pedestres que estava vermelho, um senhor da minha idade (que nunca havia visto na vida) me disse de repente, sem se apresentar, nem nada, que não entendia a filosofia e me perguntou se eu podia entendê-la. Falava como um personagem das minhas narrativas. Perguntei-lhe se me perguntava aquilo porque sabia que eu era escritor. E me disse que sim. Expliquei-lhe que a filosofia pode parecer complicada, mas que na realidade é simples, gira sempre em torno do mesmo tema ou pergunta: quem somos. Ocorrem-me, às vezes, coisas raras, desse tipo. Hoje mesmo, por exemplo, um jovem da Argentina se ofereceu, de boa-fé, a continuar minha obra e assim facilitar para que eu possa aposentar-me tranqüilamente. É possível que minha literatura provoque certas cartas (como a do jovem argentino), mas a do pedestre que não entende a filosofia me inquieta um pouco mais.

    Totalmente excelente. E aí? Vai ler O mal de Montano ou não? 😀

  2. Renata Miloni
    Posted April 27, 2008 at 08:57 | Permalink

    O narrador de Paris não tem fim diz que “a arte é o único método que temos para dizer certas verdades”. Isso realmente lhe parece possível ou seria uma maneira de dar à arte uma importância que as pessoas em geral não lhe concedem?
    É idiota buscar verdades nos políticos e não é tanto buscá-las nos livros de escritores que, como Kafka, por exemplo, a buscaram atrevidamente. A propósito de Kafka, creio que há um capítulo raríssimo e ainda por escrever da história do gênero épico. Esse capítulo incluiria todos aqueles – desde Montaigne e Cervantes até Kafka, Musil, Beckett, Perec – que lutaram com um esforço titânico contra toda forma de fingimento ou de impostura. Uma luta evidentemente paradoxal, pois quem assim combateu foram escritores que viveram afundados até o pescoço no mundo da artificialidade e da ficção. Mas buscavam a verdade. Pelo lado menos suspeito, o da ficção. Mas o fato é que a buscavam. Seja como for, dessa tensão surgiram as mais importantes páginas da literatura contemporânea.

    Vai ler ou não? (!!!) 😛

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