E agora, José?

E eu que pensei que nunca ia ter uma boa discussão aqui no blog. Não por culpa dos leitores, mas por culpa minha mesmo e também porque sei como é chato comentar em blog. Eu mesmo não gosto.

Mas no post “Os russos” já tem uns comentários legais e os dois últimos posts estão rendendo comentários bons também. Primeiro foi o Lucas, e agora o Diego foi quem comentou. Comentou tanto que acabou por transformar o comentário em um post, que reproduzo aqui.

Sobre teus dois últimos post, ô polemiquinha! Difícil responder, hein.

Baudelaire, quando publicou suas flores doentias, foi acusado por uma parte da crítica de ser imoral, embora fizesse versos impecáveis, formalmente achavam-no muito bom. Ou seja: a crítica reconhecia que era bom o livro, entretanto este não lhe agradava!

Pra mim, há uma questão muito mais difícil: até quando a moral interfere na apreciação do livro?

Tristão de Ataíde (é assim que se escreve?), no prefácio de Os Peãs, do Gerardo Mello Mourão, diz mais ou menos assim: a moral é “dever” e a literatura é “poder” (no sentido de possibilidades), é libertação. Tristão mais ou menos repete o “não há livros morais ou imorais, há livros bem ou mal escritos” e segue também o pensamento de Sartre em o O que é Literatura?.

Guimarães Rosa não gostava nem de Machado nem de Joyce. Ele tinha seus argumentos, bons argumentos e que se justificam em relação a sua obra, sua valoração de literatura. Mas deve-se levar em conta que Machado era até então o maior escritor brasileiro e Joyce o maior e mais inovador do século XX…

Eu realmente fico confuso. Pode até ser que eu esteja enganado, mas agora não me lembro de nada que seja bom e de que eu não goste. Mas noutros momentos me lembro de ter falado: “há coisas que são boas e coisas de que eu gosto”. Mas talvez disso já haja até alguns anos, agora não me lembro.

Estou meio Auerbach, somente é bom aquilo de que gosto. Em meu atual Paideuma não há nada que não me agrade, não há nada ruim. Se, um autor é muito descritivo e essa descrição não tem função literária, péssimo sinal, é ruim ou não tenho sensibilidade para perceber a iminente genialidade… E se eu não perceber como poderei gostar? E se eu não eu gostar como poderei achar bom??

Pensando-se exclusivamente em literatura: só é bom aquilo que é literatura, e eu só gosto do que é literatura.

Caso eu começasse a considerar livros como bons sem gostar, me sentiria um pouco formalista demais. Uma obra pode até ter toda uma construção formal e estrutural excelente, mas se não tiver aquela “coisa a mais”, aquilo que é a “poesia” e que nenhum crítico conseguiu definir,. Realmente acaba sendo subjetivo e inefável (mas compartilhável)…

Mais alguém?

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One Comment

  1. Posted May 20, 2007 at 02:21 | Permalink

    Bom, concordo em parte com o que escreveu o Diego, mas faço umas observações: Oscar Wilde disse o “não há livros morais ou imorais, há livros bem ou mal escritos”, e ele tem toda razão. Percebi nessa discussão um certo imbróglio entre gosto pessoal e fato empírico (para ser chato). O que se gosta, discutir é besteira; há gente de muito mal gosto nesse mundo. Gosto do Guimarães, mas duvido que ele não estava inflamado de uma certa invejinha quando criticou Machado e (Deus!) Joyce; mas ele se pautava pela opinião, e tinha todo o direito de fazê-lo. Mas fatos, mes amis, são fatos, para aludir a Wittgenstein. Exemplifiquemos utilizando a música: funk e ópera. Há quem goste do primeiro, e o ache bom, etc. E há que deteste o segundo, ache maçante, chato, pomposo demais, gay até. Mas fato é: funk não é música; ópera é mais que música, é arte, é poesia (alou, Diego), é lirismo.

    Já quando o Diego diz que só gosta do que é literatura, esse é um clássico tropeção temporal. Quem diz quando um obra é ou deixa de ser literatura? Os críticos? Não, o tempo. Hermann Hesse foi o Paulo Coelho da sua época, muito criticado, quase apedrejado, e hoje é o que é. Quando se acha um Ulysses, por exemplo, um livro ruim, a chance de o problema estar na cabeça do leitor são muito maiores que as possibilidades de toda uma geração estar equivocada.

    Um abraço Rafael, Diego.

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