Sobre o projeto da Bethânia

Crédito da foto: Alvaro Riveros

Causou polêmica a notícia (divulgada ontem) de que o Ministério da Cultura autorizou a cantora Maria Bethânia a captar 1 milhão e 300 mil reais para a execução do projeto “O mundo precisa de poesia”, que consistirá na produção de 365 vídeos em que a cantora interpretará, pelo que entendi, poemas. Esses vídeos serão disponibilizados na internet, um por dia.

Horas depois da publicação da notícia, o nome de Maria Bethânia já estava nos Trending Topics do Twitter, sendo que a maior parte dos comentários eram criticando a decisão do Ministério e também a posição de Bethânia como proponente.

Como nessas horas muitos dizem o que querem e poucos são os que vão realmente apurar como funcionam certas coisas, resolvi relembrar – porque tempos atrás eu havia pesquisado sobre isso – a Lei Rouanet. Explicações mais detalhadas o leitor encontra no site do Ministério da Cultura. Aqui serei bem simples/objetivo, ou curto e grosso, fica a critério do leitor.

Primeiro: Maria Bethânia não recebeu dinheiro algum do Ministério da Cultura. O que ela recebeu foi uma “permissão” para captar o 1 milhão e 300 mil reais junto a empresas privadas. Mas se ela vai captar recursos junto a empresas privadas, por que o Ministério da Cultura tem que autorizar isso? Aí é que entra um outro ponto que muita gente esquece, ou se faz de desentendida e ignora.

As empresas que resolverem colaborar com o projeto de Maria Bethânia terão deduções no imposto de renda. Não vou colar aqui um trecho do texto que está no site do Ministério porque a Ministra cancelou a licença Creative Commons, e, como eu sinceramente não sei, nem estou muito interessado em saber neste momento, o que isso significa, acho melhor não reproduzir nada de lá, sob risco de ser até processado ou sei lá o quê. Mas é só clicar neste link e ler o segundo parágrafo do texto.

Imposto de Renda, quase todo mundo sabe, é algo que quase todo mundo e quase toda empresa paga ao governo. Ou seja, trocando em miúdos: essa grana, esse dinheiro, essa bufunfa vai para os crofres públicos. Agora atentem para o que vem a seguir, porque é DE EXTREMA IMPORTÂNCIA: se há dedução no imposto de renda, há uma diminuição no valor que ela paga ao governo. Se há diminuição no valor que ela paga ao governo, é menos dinheiro que vai para os cofres públicos.

Menos dinheiro nos cofres públicos é menos dinheiro para políticos corruptos desviarem para suas contas em paraísos fiscais, lógico, mas é também menos recursos para se investir em educação, saúde, segurança e infraestrutura. Coisas muito mais importantes do que quem quer que seja recitar seja lá o poema que for em qualquer lugar do universo.

O valor deduzido dos impostos das empresas que vão colaborar com o projeto de Maria Bethânia pode não fazer muita diferença, no fim das contas. Mas o Ministério da Cultura não tem apenas esse projeto para autorizar. Já autorizou muitos outros [em 2007 Vanessa da Mata se valeu da Lei para captar quase 1 milhão de reais para produzir um DVD que foi vendido em lojas, para ficar em apenas um exemplo] e há muitos esperando para serem autorizados. Nem eu nem você temos noção do montante, mas quem tiver bom senso tem noção do quão ridículo é um artista do porte de Bethânia – me desculpe dizer isso, Maria, eu te admiro demais – se prestar a um papel desses.

Gostaria de deixar claro que meu reclame não tem a ver com a Maria Bethânia. Outros artistas já fizeram pedidos semelhantes, mas calhou de essa bomba estourar na mão dela, infelizmente. O que realmente incomoda é a questão de artistas com toda uma carreira e respaldo procurarem a Lei Rouanet. Incentivos culturais do governo, no meu entendimento, deveriam ser para artistas que estão começando, que estão ainda no início de uma trajetória que pode ser sufocada pela falta de alguns milhares de reais para comprar bons instrumentos e equipamentos musicais, por exemplo. Artistas já estabelecidos podem e devem usar a lei, claro, mas acho que o correto seria limitar o valor a ser capitado e ser mais criterioso em relação aos projetos. Captar recursos pra gravar um DVD e depois vendê-lo a sei lá quantos dinheiros? Para recitar poemas que serão assistidos por pessoas que têm um padrão de vida relativamente confortável? Acho que não é esse o caminho.

Quantas bandas, quantos pintores, quantos atores, atrizes, roteiristas de teatro, quantos escritores não deixam de divulgar seus trabalhos por pura falta de dinheiro? O 1 milhão e 300 mil que a Maria Bethânia foi autorizada a captar não poderia ser destinado a projetos mais amplos? Por que não “captar” esse dinheiro para a construção de bibliotecas e incentivar a leitura em comunidades carentes, ou para a criação de oficinas de música, desenho artístico etc.? Há empresas que já fazem isso, mas por que não incentivar a ampliação disso tudo?

São essas questões – na verdade, a falta de respostas verdadeiras e convincentes para elas – que incomodam.

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36 Comments

  1. Robert Blake
    Posted March 17, 2011 at 02:53 | Permalink

    Com menos de 0,01% dos 1.3 mi que #Bethania quer captar, essa galera fez este documentário.

    E fazem muito mais pela cultura brasileira, semanalmente, na raça e no amor.

    http://vimeo.com/21091707

  2. Posted March 17, 2011 at 07:57 | Permalink

    E eu ainda arrisco dizer que situações como essa podem intimidar artistas em começo de carreira a buscarem a lei para realizar seus projetos. Nossa cultura perde…

  3. Posted March 17, 2011 at 16:08 | Permalink

    Disse muito! Afinou as dissonâncias da blogosfera e trouxe informação. Concordo contigo e acho que realmente passou um pouco da conta toda essa verba. Sei lá, como disse no Facebook, se o governo me pagasse 4 mil por mês eu visitaria 800 escolas por ano ensinando a ler posia ou fazendo oficinas. Bom, espero que a discussão gere alguma coisa.

  4. Posted March 17, 2011 at 16:13 | Permalink

    Se esse dinheiro fosse para montar uma turnê de shows ou recitais de poesia em diversas cidades com o objetivo de aproximar a poesia do cotidiano ou algo do tipo, seria aceitável.

  5. Posted March 17, 2011 at 16:15 | Permalink

    Não gosto de Maria Bethania (acho-a ridícula). Também sou contra essa verba milionária que ela receberá para fazer nada. Recebam meu axé indignado.

  6. Vitor
    Posted March 17, 2011 at 16:17 | Permalink

    Nao concordo com essa opiniao. Bethania é sim uma artista consagrada, porém esse projeto jamais receberia nenhum tipo de apoio de gravadoras pela pouca visibilidade que teria. Com certeza o dinheiro será utilizado pra um trabalho de grande qualidade artística e necessário nos tempos atuais de mediocridade. Você fala de criar bibliotecas e incentivar a leitura, nao seria o trabalho de bethania muito mais eficaz levando poesia com recursos audio-visuais para a internet que é onde os jovens estao? É no minimo uma contradiçao esse seu comentario, ou má-vontade com a artista. Se formos pensar no dinheiro que deixa de ser investido em saúde, segurança, etc, entao teriamos uma conversa mais longa. Nesse caso deveriamos fechar as portas de todos os museus, teatros publicos e galerias de arte que gastam muito mais que 1 milha e 300 mil e vivem as moscas por falta de publico

    • Rafael Rodrigues
      Posted March 17, 2011 at 16:24 | Permalink

      Vitor, eu ia te responder, mas o Marcelo Argôlo respondeu por mim. Como disse no post: não sou contra a ideia, nem contra a Bethânia. O que critico é o alto valor a ser captado e o pouco retorno social que esse projeto dará.

  7. Posted March 17, 2011 at 16:24 | Permalink

    Mais uma vez se cai na velha falácia de achar que grandes artistas dispensam patrocínios e subvenções, e ainda chega-se ao cúmulo de dizer que o projeto de dona Bethânia é trivial ou descartável. O dinheiro é necessário, a lei permite que a artista — assim como qualquer cidadão — recorra a tal alternativa e a permissão foi dada: tudo dentro da legalidade e da moralidade. Se a lei é defeituosa ou o sistema é falho, se o Brasil tem políticos corruptos ou se tem gente passando fome, nada disso pode ser atribuído a ela. Muito me entristece a limitação de certos argumentos e o maniqueísmo de tantas opiniões “respeitáveis”.

    • Rafael Rodrigues
      Posted March 17, 2011 at 16:35 | Permalink

      Rodolfo, o que posso te dizer é o que disse ao Vitor, no comentário abaixo. Só acrescento o seguinte, referente ao período “Se a lei é defeituosa ou o sistema é falho, se o Brasil tem políticos corruptos ou se tem gente passando fome, nada disso pode ser atribuído a ela.”. Tudo bem, você está certo, mas não é por ser defeito da lei ou falha do sistema que não vamos reclamar. É preciso falar, discutir, reivindicar. Ou você acha que o certo é baixar a cabeça e aceitar tudo o que nos for imposto?

  8. Marco Aurélio
    Posted March 17, 2011 at 16:30 | Permalink

    O texto está bom, porém não é perfeito.

    Dois pontos: 1- na grande maioria das vezes, a lei Rouanet, lei do Audiovisual, ou aqueles editais que o MinC abre de tempos em tempos NÃO PODEM ser descontados integralmente, seja doado pessoas jurídicas ou físicas. No caso das empresas, pelo que li até agora deste caso, não se trata de mecenato, mas de marketing cultural. Eles esperam retorno de imagem com estas doações;
    2- Promover apenas artistas em começo de carreira é BESTEIRA, foi o ponto que me fez tecer este comentário, aliás. Novamente partindo pro marketing cultural, num campo como a poesia, é IMPRESCINDÍVEL que algum artista renomado coloque seu nome no projeto, senão é dinheiro jogado fora. O MKC é uma ferramenta poderosa, mas sub-utilizada, justamente pela falta de conhecimento de quem o pratica. Não estou dizendo que novos artistas não devam ser auxiliados pelo governo, apenas que artistas renomados têm mais poder para propagar a cultura;

    Agora, o valor investido, a artista escolhida, o público eletizado que esta ação atrairá, o porquê do valor não ser investido em áreas mais necessitadas, nisso concordo plenamente.

    Abs

    • Rafael Rodrigues
      Posted March 17, 2011 at 16:40 | Permalink

      Marco, ao menos em algo nós concordamos. Sobre o segundo ponto, me perdoe, mas discordo veementemente de você. Artistas renomados já propagam cultura por si sós, e não sou contra, como disse no texto, que eles participem de projetos do governo. Falei, inclusive, que a limitação de valores e um maior critério na escolha dos selecionados seria um bom caminho. Mas artistas que estão começando, ou mesmo que já têm uma certa “carreira”, mas precisam de incentivos financeiros, é que deveriam ter prioridade. Tente fazer um espetáculo teatral, tente ser um artista plástico, tente fazer boa música nos tempos de hoje. Não é fácil, rapaz. Não acho que tudo deva ser financiado, nem que tudo não deva ser. Acho apenas que os critérios deveriam ser mais sensatos, pensando mais no retorno que o dinheiro dará à comunidade como um todo, e não a apenas uma pequena parcela da população.

  9. Rhenan S.B.
    Posted March 17, 2011 at 16:37 | Permalink

    Dou total apoio à Bethânia. Mais que isso, acho louvável. A lei está aí para ser executada, então que façam seus projetos e enviem, que sejam bons o suficiente. 365 vídeos de Maria Bethânia interpretado o que for, de graça, com alta qualidade e para a eternidade é de se aplaudir e agradecê-la por se dispor a deixar uma obra como a que virá.

    Compreendo que novos artistas mereçam seu espaço, mereçam! Corram atrás e sejam bons o suficiente. Espero que esses novos artistas – os competentes e merecedores – tenham e desfrutem do que mereçam. Espero ainda que possam ser valorizados e respeitados aos 46 anos de carreira (“A” carreira), como Bethânia.

    Se esse valor fosse apenas o cachê de Bethânia para fazer os tais vídeos, seria pertinente.
    E em um país como o Brasil, nada relacionado à cultura seria “exagero” ou “desnecessário”.

    Por último e mais uma vez, peço que deixem o recalque e a ignorância de lado e compreendam que durante um ano, diariamente teremos 3 minutos de poesia e interpretação de Maria Bethânia (aquela chamada de Abelha-Rainha) para todo o mundo à qualquer hora e eternamente.

    • Rafael Rodrigues
      Posted March 17, 2011 at 16:44 | Permalink

      Rhenan, acho que a resposta ao seu comentário é uma soma dos comentários que fiz abaixo. Agora, me perdoe, mas… “deixem de recalque”? “Abelha rainha”? Me desculpe, mas esses minutos de poesia com a “Abelha-rainha” não acrescentam em nada à vida de ninguém. Há muitas coisas mais urgentes e importantes do que isso. Ademais, quem quiser minutos de poesia pode encontrar uma enorme quantidade de sites – gratuitos! – com esse conteúdo, além de poder ir a bibliotecas e livrarias e ler/comprar quantos livros de poesia o dinheiro deixar.

  10. Rafael Rodrigues
    Posted March 17, 2011 at 17:19 | Permalink

    perdão: onde se lê “abaixo” em meus comentários, quis dizer “acima”. é que é “abaixo” no setup onde os respondo hehe

  11. Gabriel Besnos
    Posted March 17, 2011 at 17:46 | Permalink

    Concordo totalmente com o Vitor, no comentário mais acima.

    E outra coisa: o autor deste post teve acesso ao projeto cultural em si? Como ele pode julgar que não tem relevância e impacto sociais suficientes um projeto cultural que desconhece?

    Por outro lado, que eu saiba nem todo o dinheiro investido pelas empresas é dedutível no IR, o que faz com que os projetos tenham que se alinhar também a critérios mercadológicos para angariar patrocínios. O jornalista sabe se outros projetos preteridos em nome deste da Bethânia teriam possibilidade de se encaixar nas verbas de marketing das grandes empresas? Qual é o caminho para projetos culturais de grande porte no Brasil se não a renúncia fiscal?

    É lamentável que a Bravo! reproduza um discurso de que há coisa mais importante a fazer com uma verba de renúncia fiscal já garantida no orçamento da União.

    • Rafael Rodrigues
      Posted March 17, 2011 at 17:52 | Permalink

      Gabriel, antes de qualquer coisa, a Bravo! não reproduz nada, este é um blog pessoal e as opiniões aqui publicadas são minhas, nada têm a ver com a revista.

      Acesso ao projeto cultural? O projeto é isso: gravar 365 vídeos e colocar na internet um por dia. Impacto social existiria se junto a isso abrissem lan-houses em comunidades carentes para que pessoas com condição financeira precária pudesse assistir às performances da Bethânia. Além disso, seria interessante explicar à comunidade carente a importância da arte e falar um pouco sobre cada poeta/poema interpretado.

      Não há nada disso no projeto. Portanto, não há “impacto social” algum.

      Me desculpe, mas lamentável é querer defender um projeto tão vazio e sem sentido como esse.

    • Rafael Rodrigues
      Posted March 17, 2011 at 17:53 | Permalink

      Ah, sim, e aqui está um link para ter acesso aos detalhes do projeto: http://www.implicante.org/blog/blog-bethaniaandrucha-dissecamos-o-projeto-entregue-ao-minc/

  12. Gabriel Besnos
    Posted March 17, 2011 at 18:00 | Permalink

    Jornalista é mesmo escravo da manchete.

    Em nome da manchete “1,3 milhão para um blog da Bethânia” se DETURPAM os fatos e o trabalho dos outros. 1. Não é um blog, é um projeto cultural; 2. Não é mecenato do Governo, é autorização para renúncia fiscal; 3. Levar poesia para a internet em uma produção bem feita, com artistas consagrados e competentes tem relevância social e cultural sim; 4. Não há provas de que o processo técnico de escolha do projeto tem alguma irregularidade – o que, aí sim, configuraria uma notícia; 5. Nenhum dos críticos se deu ao trabalho de CONHECER o projeto antes de sair criticando e ridicularizando o trabalho dos outros (aliás, algo bem típico em nossas terras).

    Trata-se, portanto, de uma notícia vazia, que gera um preconceito tacanho, proliferada em um país que, carente de cultura, insiste em chafurdar na mediocridade.

    • Rafael Rodrigues
      Posted March 17, 2011 at 18:06 | Permalink

      Gabriel, quase tudo o que você disse no comentário acima eu falei, com outras palavras, no meu texto. Além disso, li bastante antes de escrevê-lo. Não saí “criticando e ridicularizando” o trabalho de ninguém. Se foi essa a leitura que você fez do meu texto, é uma pena.

  13. Marco Aurélio
    Posted March 17, 2011 at 19:34 | Permalink

    Rafael,
    eu me referi quanto a propagar a cultura, fazendo marketing cultural mesmo. Vamos usar a própria poesia como exemplo: quem você acha que conseguiria mais público lançando o mesmo livro de poemas, a Angélica ou alguma artista recém lançada na mídia?

    Desculpe, mas a parte de que artistas propagam cultura por sí sós está equivocada. Sem o apoio de terceiros, não existe como alguma manifestação cultural ser amplamente difundida. O próprio MinC não é autosustentável (razão pela qual existem a leis Rouanet e Audiovisual), o que dirá apenas artistas?

    Sim, existe um apoio ínfimo (para não dizer ridículo) aos novos artistas, porém isto é outro assunto. É muito mais fácil conseguirem apoio de pessoas físicas fazendo mecenato, do que grandes organizações apoiarem shows onde podem até ficar com sua imagem comprometida. É necessário conhecer o espetáculo antes de financiá-lo, senão pode acarretar em propaganda negativa pra empresa.

    Já apoio do governo para eles, esqueça. O próprio ministério que deveria cuidar disso é semi-falido (o repassado ao MinC chega a apenas 0,61% da arrecadação fiscal), um valor irrisório perto do que seria necessário para a utopia que alguns já estão especulando.

    Grande abraço, espero não ter gerado qualquer atrito.

    • Rafael Rodrigues
      Posted March 17, 2011 at 22:44 | Permalink

      Marco, você não gerou atrito algum. Dialogar com interlocutores como você é excelente, porque é uma discussão de alto nível.

      A questão é que pensamos de maneiras diferentes. É quase como aquela coisa de “quem veio primeiro: o ovo ou a galinha?”. Pelo que entendi do que você falou, um grande artista, por ser famoso e estabelecido, pode influenciar um maior número de pessoas com sua arte, o que talvez faça com que essas pessoas passem a se interessar mais e consumir mais cultura. Já o que penso é o seguinte: para que as pessoas possam se interessar mais por cultura, é preciso melhorar a qualidade da educação delas e facilitar o acesso delas às artes. Esse projeto da Bethânia, a meu ver, tem um público muito limitado, e por isso é que, na minha opinião, acho que é dinheiro demais para pouco público e nenhuma contrapartida social.

      Novos artistas trazem quase sempre novas e boas ideias, novas maneiras de dialogar com a sociedade. Tem muita gente com boa vontade e disposição para encarar projetos mais voltados à população carente, algo que tem mais a ver com educação, formação. O projeto da Bethânia – mais uma vez ressalto: a meu ver – é voltado para pessoas que já têm formação, já têm bagagem cultural.

      Isso torna ainda mais grave a questão do dinheiro, que já é pouco. Se é pouco, que seja investido da melhor maneira possível. Deixem a Maria Bethânia comprar uma webcam e gravar poemas no computador dela. Que deem o dinheiro para quem está afim de ir a colégios públicos conversar com a garotada, subir o morro, levar essa garotada que não conhece um teatro a um teatro decente, para ver um espetáculo de qualidade. Se quisessem levar alunos da rede pública para ver o Soleil, desde que houvesse uma explicação para eles do que representa o Circ, de sua história etc., eu estaria aqui soltando fogos de artifício, em vez de fazer o papel do chato reclamão.

      Grande abraço para você, vamos nos falando!

  14. Daniela da Silva Telles
    Posted March 17, 2011 at 19:45 | Permalink

    Lei Rouanet é dinheiro público. Não faz o menor sentido pressupor que o recurso que vai ao governo seria obrigatoriamente desviado. Devíamos é lutar para que nossos impostos façam valer e não deixar que o Bradesco, Itaú, Petrobras e outras empresas escolham que tipo de cultura chegar até nós. Perceba que o patrocínio dessas empresas não necessariamente se deixa guiar pelo critério de interesse público. O que precisa ser combatido é o fato de eventos pagos COM DINHEIRO PÚBLICO, SIM SENHOR, cobrarem preços vultosos nas bilheterias.

    Isto posto, eu acho que o dinheiro que o Ministério da Cultura autorizou o projeto a captar, portanto, o Governo renuncia receber esse valor (nunca é demais explicar para quem não entende bem), está sendo aplicado de forma justa porque a Maria Bethânia é uma grande artista brasileira.

    Misturar dois assuntos como você fez neste post só confundem o leitor que não entende bem o mecanismo de renúncia fiscal. Uma coisa é o mérito da artista em receber dinheiro público, outra coisa é o entendimento da lei, que nesse caso, passa longe de ser subjetivo.

    • Rafael Rodrigues
      Posted March 17, 2011 at 22:59 | Permalink

      Daniela, meu post está, modéstia à parte, muito claro e bem explicado. As informações corretas estão todas aí, e prova disso é que até mesmo pessoas que discordam de mim me parabenizaram pelo texto. Não fiz mistura alguma, não há confusão alguma nele.

      Agora, me diga o seguinte: suponha que um estudante da rede pública de ensino queira assistir aos vídeos da Bethânia. O colégio onde ele estuda não tem laboratório de informática. É provável que os computadores até tenham sido adquiridos, mas não há professor de informática contratado, ou não há estrutura física no colégio para as máquinas serem instaladas. [NOTA: eu já presenciei um caso assim numa escola aqui da cidade. Ou seja: não estou devaneando.] Continuando: o estudante quer ver os poemas declamados pela Bethânia. Ah, ele não tem computador. Os pais dele não têm dinheiro para isso. A saída que ele tem é ir a uma lan-house e pagar 0,50 centavos por dia para ver os poemas. Aliás, melhor: ele é esperto e vai à lan-house apenas uma vez por semana, para economizar o dinheiro. Ele vai gastar 26 reais. Não é um “preço vultuoso”, mas é esse o ingresso que se paga para ver a Bethânia. Além do dinheiro que não vai para os cofres públicos, vai ter gente gastando dinheiro para ver isso.

      O que quero dizer é o seguinte: só concordo com um projeto desse tipo, desse quilate, envolvendo dinheiro que iria para os cofres públicos, se houver uma contrapartida social. Quando enviei, ano passado, meu projeto de romance para a Funarte, me comprometi a, com o dinheiro que me seria destinado, fazer uma espécie de turnê de lançamento do livro, para falar a alunos de escolas públicas sobre como é importante ler, além de doar uma determinada quantidade de livros para bibliotecas de escolas e universidades públicas. Não sou nenhum santo, essa ideia não é minha, mas seria o mínimo que eu poderia fazer, já que o governo iria me pagar – uma mixaria se comparado com esse valor que a Bethânia poderá captar – para eu sentar a bunda na cadeira e escrever um romance.

      Se eu tivesse paciência, eu mesmo faria um site para postar vídeos declamando poemas. Isso pode ser feito de graça, não é necessário nem 1 real para isso, se você tiver o equipamento necessário. O vídeo pode ser colocado no YouTube, você pode gravá-lo no seu quarto. Me desculpe, mas é decepcionante ver tanta gente não perceber o quão ridículo é esse projeto da Bethânia.

  15. Marco Aurélio
    Posted March 18, 2011 at 01:02 | Permalink

    Rafael,
    Concordo com plenamente tudo do seu último comentário. Minha crítica foi feita sobre seu comentário de que empresam que ‘financiam’ artistas renomados não deveriam ser auxiliados pela lei Rouanet, e que artistas famosos não precisam de incentivos fiscais.

    Quero deixar bem claro que dou meu total apoio à novas formas de inserção de novos artistas no mercado. Como deve ter percebido, estou me focando no fator administrativo da coisa: o retorno que as ações irão trazer. Garantir o retorno em imagem e/ou dinheiro é essencial pra quem financia as manifestações culturais. Um artista renomado é a melhor maneira de fazer isso acontecer.

    Mas voltando ao assunto da matéria: o público alvo será muito eletizado. O valor é muito alto (do que mais precisa para o que ela quer, além de um PC, uma webcam, o próprio blog e uma conta no youtube?). Como administrador, o único fator positivo que vejo desta PALHAÇADA que se armou é que, devido ao alto valor estipulado, deu-se origem a uma grande propaganda.

    O que eu havia para falar que considero relevante, já foi dito.

    Grato pelo espaço, e pelo respeito no debate, Rafael.
    Abraços

    • Rafael Rodrigues
      Posted March 18, 2011 at 01:57 | Permalink

      Marco, é como falei no post: não sou contra artistas consagrados irem atrás desses incentivos. Só acho que os valores de captação, para esses artistas, não deve ser tão alto, e que deve ser feita uma análise ainda mais criteriosa dos projetos deles. E, claro, a cobrança deve ser ainda maior, também.

      No mais, concordamos em tudo.

      Abração e eu que agradeço pelos comentários e pela leitura atenciosa 🙂

  16. Posted March 18, 2011 at 16:07 | Permalink

    a melhor resposta (e crítica) que tive o prazer em ver ao caso bethânico: http://fubap.org/365poemas/

    365 vídeos com poemas contemporâneos pelo preço de um real

  17. Posted March 19, 2011 at 02:42 | Permalink

    Desculpe-me pela expressão Rafael, mas “teus leitores” estão batendo recordes na síndrome do “ovelhismo”, e quando muitas ovelhas começam a berrar em defesa do cajado que as “protege e guia”, o resultado é sempre este que vemos acima. Uma mistura de ingenuidade com ideias fajutas.
    Seu texto foi lúcido e harmonioso com as justas indignações que se alastram nos mais diversos canais de comunicação.
    Abs.

  18. Vitor
    Posted March 22, 2011 at 15:38 | Permalink

    Acho que o assunto ja está encerrado, mas só agora voltei ao blog e vi os comentarios posteriores. Chamar de bobagem o trabalho da Bethania é no minimo falta de respeito. Com relaçao ao tema Lan House que foi citado, todos os jovens passam horas diarias nestas perdendo tempo em orkut e msn, seria otimo junto a isso terem um pouco de cultura com os poemas da Bethania, ninguem iria pagar exclusivamente por isso, novamente má-vontade e tentativa de diminuir o projeto. Vou dar um exemplo pessoal meu que deixa claro pq acredito tanto no potencial desse trabalho. Eu moro em uma cidade em que nao temos cinema, nao temos teatro, nao temos shopping, nem bibliotecas, nem centro culturais. Nao existe incentivo a cultura. O que as pessoas fazem aqui é passar horas de frente pra tv e internet, ja que as tvs a cabo e internet piratas chegaram em todos os lugares. Eu nunca tive contato com literatura e poesia, nao gostava de Bethania, nem nenhum astro da MPB, um dia zapeando a tv a cabo (a popular gatonet) vi uma senhora declamando um poema de alguem que eu nao fazia ideia de quem era. Descobri que era Bethania declamando Fernando Pessoa em um show seu chamado “Maricotinha” e desde entao nunca mais fui o mesmo. Fui arrebatado pela força e beleza do número que só Bethania seria capaz de fazer. Isso tem uns 5 anos e desde entao passei a ler tudo de Fernando Pessoa e virei um amante da poesia de grandes poetas declamados por bethania, que ate entao era apenas uma cantora do cabelo estranho pra mim. Tenho noticias do uso do trabalho de bethania em salas de aulas de uma forma muito interessante, tem entrevistas de profesores dizendo isso, basta procurar no youtube um programa “Sem Censura” dedicado a ela na epoca do show “Brasileirinho”. Eu poderia ficar aqui horas escrevendo sobre o poder desse projeto, mas nada faria diferença pq as pessoas so veem o que convem. Claro que eu gostaria de que fossem construidos teatros e centros culturais na minha cidade e em todas do Brasil, mas sei que é uma realidade impossivel, o milhao da bethania nao daria nem pra manter 1 mes de funcionamento e certamente seria um dinheiro jogado fora por falta de publico. Precisamos de formaçao de um publico que goste de teatro, poesia, musica de qualidade e certamente isso o trabalho da bethania seria capaz de fazer

    • Rafael Rodrigues
      Posted March 22, 2011 at 16:24 | Permalink

      Vitor, o que mais critico nesse e noutros projetos é a contrapartida social. Veja bem: você teve acesso à Bethânia recitando por ter TV a cabo. Pobre não tem TV a cabo. Pobre não tem acesso à internet. Pobre não terá acesso ao projeto da Bethânia. Pobre sequer sabe de toda essa celeuma que foi criada. É disso que estou falando. Se esse e outros projetos tiverem lá uma observação dizendo que vão levar o que for realizado para as camadas mais favorecidas, DE GRAÇA, ou levar essas pessoas aos teatros e cinemas, aí tudo bem.

  19. Vitor
    Posted March 22, 2011 at 15:42 | Permalink

    Aqui o vídeo em que Bethania esteve na escola em que seu trabalho foi utilizado para ser entrevistada por alunos: http://www.youtube.com/watch?v=ECBpDnQQvfA
    Realmente alguem sabe alguma coisa sobre a bethania quando vem criticar? O mundo realmente precisa de poesia e de mais bethanias. Estao todos alienados pelos 140 caracteres, ninguem se informa mais sobre nada, so olham a manchete e saem criticando

    • Rafael Rodrigues
      Posted March 22, 2011 at 16:26 | Permalink

      Vitor, meu texto desbanca essa sua afirmação de ler a manchete e sair criticando. Antes de escrever o post eu li bastante sobre o assunto.

  20. vitor
    Posted March 22, 2011 at 22:16 | Permalink

    Pobre nao tem acesso a internet? em que mundo vc vive? É só vc entrar no orkut e vc vai ver a quantidade de pobres que estao la com suas paginas entrando diariamente. Depois da tv, a internet é o veiculo mais presente na vida dos brasileiros. Quanto a ler bastante sobre o assunto, nao parece que foi suficiente visto que nao sabe nada sobre a Bethania, caso contrario pensaria diferente. Enquanto vcs estao questionando a probabilidade do projeto dela chegar aos mais pobres ou nao, ela está fazendo acontecer. O vídeo que eu postei dela em 2007 nessa escola pública é so um exemplo. Recentemente na estréia de seu espetáculo Bethania e as palavras, houve uma sessão exclusiva e gratuita pra alunos de escolas publicas, esse mesmo trabalho esteve presente em uma universidade publica totalmente de graça. Ela nao está caindo de paraquedas nesse projeto como alguns tentam passar. A intençao de fazer algo mais concreto e didatico e que dure pra vida toda, veio justamente desses encontros que tiveram uma resposta tao positiva. Enquanto vcs estao criticando, ela está fazendo e provando que é possivel sim levar um trabalho de qualidade pra pessoas mais pobres. 1 milhao é pouco pra Bethania, ela merece muito mais

    • Rafael Rodrigues
      Posted March 27, 2011 at 21:54 | Permalink

      Tudo bem, Vitor. Cada um pensa de uma maneira. Não vamos chegar nunca a um consenso sobre isso, então, sigamos em frente. Um abraço!

  21. Posted March 27, 2011 at 10:38 | Permalink

    Rafael: faltou tocar no principal ponto, a meu ver: o estado brasileiro não tem política para a cultura, ou seja, ele não aplica critérios para selecionar quem será contemplado. Quem seleciona é o mercado através da captação e quem paga é o estado, é o contribuinte. Essa é a principal contradição. Como Betânia tem nome e contatos, ela tem capacidade de captar esse valor. O que irrita é o contraste entre essse enorme ganho e os ganhos irrisórios da grande maioria dos artistas, jornalistas e escritores.

    Abs!

  22. Posted March 28, 2011 at 16:19 | Permalink
  23. Gyselle Christine
    Posted April 12, 2011 at 22:41 | Permalink

    O papel do artista na sociedade é algo que não deve ser negligenciado, o artista precisa avaliar e conhecer bem sua força diante de suas escolhas. Mas o fato não diminue o talento da Artista.

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