Reflexões Pulitzerianas

A notícia pegou de surpresa quem acompanha o Prêmio Pulitzer, talvez a mais prestigiada honraria jornalística e literária das Américas – não obstante o modesto valor pago pelo prêmio, de “apenas” 10 mil dólares: em 2012 não houve nenhum livro de ficção apto a recebê-lo.

O pensamento mais imediato – ou automático -, talvez, seja o de imaginar que a ficção norte-americana – lembrando que o Pulitzer é destinado a trabalhos lançados nos Estados Unidos – esteja em crise. Algo um tanto quanto difícil de acreditar, quando lembramos dos casos de Jonathan Franzen e seu celebradíssimo “Liberdade”, e do mais recente vencedor do prêmio na categoria, “A visita cruel do tempo”, de Jennifer Eagan, romance elogiadíssimo não apenas por lá, mas por aqui também.

É certo que o fato de a ficção não ser contemplada com o prêmio este ano é sinal de que a produção literária nos EUA não está em seus melhores dias. Mas talvez seja também uma espécie de alerta para outro problema: o difícil acesso de autores iniciantes ou pouco conhecidos aos grandes meios de comunicação.

Seria hipócrita continuar este texto – que não tenho a menor ideia de onde vai parar – sem antes dizer que não tenho conhecimento de causa suficiente para defender meu argumento de maneira sólida. Continuarei escrevendo imaginando que a situação norte-americana seja um tanto parecida com a brasileira. Se não for, podem bater no blogueiro – mas apenas virtualmente, por favor.

No Brasil, estamos vivendo um momento bastante interessante, que é o da facilidade da autopublicação, e mesmo da publicação sob a aba de editoras que, mesmo de pequeno porte, estão investindo em autores inéditos ou pouco conhecidos. O grande problema é que tais investidas esbarram em questões como distribuição – essas editoras não têm condições de fazer esse trabalho de maneira satisfatória, ou simplesmente não fazem -, preço do livro – geralmente o valor da obra de um novo autor fica na mesma faixa de preço dos volumes mais breves de Roberto Bolaño ou Philip Roth, por exemplo – e a pouquíssima divulgação – a editora não tem como fazê-la de maneira decente, e o autor até que tenta, mas sozinho não consegue fazer muita coisa.

Com isso, a obra acaba restrita a algumas poucas pessoas – quase sempre parentes e amigos do escritor.

Tudo isso parece conversa de autor fracassado, magoado, ressentido. Às vezes até é. Mas quando lembramos que James Joyce teve dificuldades para encontrar uma editora para o seu “Dublinenses”, ou que Marcel Proust teve o primeiro volume de “Em busca do tempo perdido” recusado por uma editora, só para ficar em casos mais famosos, fica a pergunta: será que não haverá por aí excelentes escritores esbarrando nas dificuldades apresentadas acima?

Pior: será que não existem por aí bons autores que sequer tentam publicar, com receio de que sua aventura editorial dê em nada?

Para que uma obra literária vença algum prêmio, é necessário que ela chegue às mãos dos jurados com boas referências, e a tempo de poder ser lida. Mas isso não acontece sem que essa obra tenha uma boa distribuição, uma boa divulgação e pelo menos algumas boas críticas na imprensa – não necessariamente impressa.

Fica, portanto, o questionamento: a falta de prêmio para a categoria ficção do Pulitzer é culpa da baixa qualidade da literatura feita no último ano nos Estados Unidos ou seria resultado do conhecido e talvez ultrapassado modelo de publicação e divulgação, no qual são privilegiados autores indicados por pessoas com influência no ramo?

É uma pergunta que talvez seja respondida nos próximos anos, quando a publicação impressa deixará de ter a relevância que tinha, e os escritores estiverem melhor preparados para lidarem com os meios de publicação eletrônicos. Os livros virtuais derrubam barreiras, não precisam estar nas prateleiras de livrarias físicas, basta estarem ao alcance de um clique. Quem sabe o Pulitzer – ou qualquer outro prêmio – não premie uma obra publicada originalmente ou mesmo apenas virtualmente, nos próximos anos?

Enquanto isso não acontece, faço um outro questionamento: por que as grandes editoras não investem mais na publicação de novos autores? Hoje, com livros de bolso sendo vendidos a partir de 5 reais, é difícil entender qual a dificuldade em se criar um projeto editorial voltado para autores inéditos ou pouco conhecidos. Não seria necessário editar o livro com o melhor material do mercado, com uma tiragem de quatro dígitos e uma divulgação maciça, nada disso. O livro poderia ser em formato de bolso, com um material bom, mas nem tanto, e com uma boa distribuição. O preço não ultrapassaria o patamar de 20 reais, e a divulgação seria feita virtualmente. Até porque qualquer coisa que uma grande editora publica ganha maior destaque. Uma pequena quantidade de exemplares seria destinado à divulgação na imprensa e a pessoas com certa influência no mercado editorial.

Isso, é claro, não resolveria problema algum. Mas talvez fossem descobertos novos e talentosos escritores, e os prêmios literários fossem ainda mais disputados. Além disso, os eventos literários não ficariam restritos aos convidados de sempre.

Mas além de a ideia ser um tanto utópica, talvez seja pedir demais.

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One Comment

  1. Camila Pigato
    Posted April 18, 2012 at 12:43 | Permalink

    Boa tarde, Rafael! Adorei o texto! Seus questionamentos são os meus! É desesperador você sentir que tem algo a dar, algo que poderia acrescentar no mundo, e simplesmente não fazer parte do circuito. Apesar de enfrentar esta realidade, eu sempre segui, sendo considerada irresponsável e “louca” por praticamente todos à minha volta, tamanha a fé que coloco em minha mensagem. Claro, por ter levado anos para admitir a mim que sou escritora, ainda há muito o quê aprender e ficar “razoável”. Nada que um profissional do ramo não lapidasse. Estou em vias de publicar meu primeiro livro e tive esta chance, mas ainda não sei qual será o meu espaço… É tão simples… Basta a oportunidade ser dada, numa edição barata e com divulgação sem grandes custos, como você sugeriu… Sabe o que sempre me motivou? Saber que Galileu defendeu o heliocentrismo e foi ridicularizado pela ideia coletiva vigente. Entretanto, quem estava certo? Portanto, apóio também a sua “utopia”! Abraço!

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