Progress, do Take That 1/2

Tudo começou por acaso, ao encontrar um greatest hits duplo do Robbie Williams por R$ 9,90 (a saber: “In and out of consciousness”, que, como todo greatest hits, tem seus altos e baixos para cada fã).

(E, aqui, um parêntese: este pode ser o post que me desmoralizará para todo o sempre; afinal, estou afirmando, de uma só vez, que ouço Robbie Williams e Take That. Mas espero contar com a compreensão dos amigos e com o apoio das fãs histéricas de Robbie e companhia.)

A primeira música do Greatest Hits chama-se “Shame”, e logo na primeira estrofe reconheci uma voz. O encarte me informou que era, como eu suspeitava, Gary Barlow. Mas como Barlow poderia fazer um dueto com Williams, se ambos estavam brigados há anos?

(Outro parêntese se faz necessário: “Shame”, composta por Williams e Barlow, é uma belíssima canção, uma das mais belas que ouvi nos últimos tempos. A letra nos leva a crer que ela fala sobre a amizade que eles tinham, foi interrompida e recentemente retomada. Mas todo aquele que tenha assuntos ou diferenças pendentes com pessoas queridas pode tomar a música para si e, quem sabe, finalmente dizer aquilo que precisa ser, mas não foi, dito. Agora, bem que o clipe poderia não ter esse fundo “Brokeback Mountain”, né?)

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=tv49bC5xGVY[/youtube]

Quando era adolescente e passava pelas já memoráveis fossas amorosas, eu costumava buscar conforto – na verdade, me afogar ainda mais no buraco da desilusão – em músicas para lá de deprimentes. Uma das que mais ouvi, em determinada época, foi “Back for good”, de Gary Barlow. Ouçam a canção e confiram sua tradução, aí vocês entenderão o por quê.

Digo isso para justificar o reconhecimento de sua voz, mesmo depois de tantos anos. Sim, claro, o rock me salvou, conheci o amor de minha vida e durante muito tempo o Take That não era sequer uma lembrança. Não soube nem do fim da banda, em 1996, nem da volta deles, em 2005. Mas soube da briga entre Williams e Barlow, por causa da falta de compromisso do primeiro com o grupo, quando eles ainda formavam um quinteto. Em 2005 a reunião englobava quatro membros. Robbie Williams estava de fora.

Foi em 2010 que ele retornou ao grupo. Os cinco “quarentões” – Gary Barlow, Howard Donald, Jason Orange, Mark Owen e Robbie Williams; apenas estes dois últimos estando abaixo da linha dos 40 anos – gravaram “Progress”, lançado em novembro de 2010, um álbum muito superior a tudo que o Take That fez, mesmo de 2005 até então.

Os discos anteriores a “Progress” são muito “corretos”, muito “limpos”. Em suma: são pops demais, e até românticos em demasia. Com Robbie Williams de volta, de longe o que mais sucesso teve em carreira solo, o grupo aparentemente se sentiu mais à vontade para arriscar, e fez uso de sintetizadores, por exemplo, além de “sujar” algumas músicas com distorções de instrumentos e vocais.

Isso não ocorre em “The flood”, primeira música do disco, que, apesar de muito bem orquestrada, e superior em todos os aspectos a todas as faixas de “The circle”, álbum anterior da banda, não traz muitas novidades à discografia do grupo.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=aCHg5r6rFoI[/youtube]

A coisa muda de figura a partir da perturbadora “SOS”, segunda música de “Progress”. Ela começa com o que parece ser um sintetizador emulando uma sirene, com uma ruído ao fundo emulando uma interferência de sinal. Enquanto “The flood” fala em progresso – no sentido de superação pessoal -, “SOS” fala de outro progresso, mas aquele que pode nos destruir: o progresso econômico e tecnológico desenfreado que pode causar o fim da humanidade.

São essas duas formas de progresso, a propósito, que sustentam o álbum. Não é à toa, portanto, que ele carrega esse título. Mesmo em músicas mais dançantes e menos incômodas como “Wait”, a questão do progresso é levantada, quando um dos versos diz que estamos nos tornando cada vez mais mecânicos.

(Continua amanhã.)

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One Comment

  1. Eila Lane
    Posted April 9, 2012 at 16:48 | Permalink

    Take That, nunca pensei que eu gastaria mais tempo com eles do que o necessario para ouvir Back for good. Foi a primeira música deles que eu ouvi. Eu já estava casada, mãe de um garoto de 7-8 anos, altamente deprimida e perdida de mim mesma. A música me acertou em cheio, ainda que eu não entendesse uma palavra (não falava inglês)eu senti que back for good era irmã gêmea da minha tristeza. Mas não foi só a música, eu tenho, sem querer, uma coisa com “vozes”. Eu acho que uma voz pode tornar uma música ruim numa obra prima. Back for good não era só a melodia nem a letra, era a voz de Gary Barlow. Ah! Esqueci de dizer que eu só fui descobrir o nome da banda 5 anos depois de ouvir a música. Não sou de me ligar facilmente no artista, a música é que é o grande barato. Eis que agora,15 anos mais tarde, estou eu xeretando no Kboing quando deparei com Take That e resolvi relembrar Back for Good. Eu sou mesmo muito esquisita. Eu me lixo pra banda quando ela está no auge, foi assim com o Legião Urbana, mas anos depois eu acabo fazendo uma “mea Culpa”. É muito mais seguro fazer julgamento de valores em cima de uma história pronta. Eu comecei a ouvir tudo o que achei do Take That e descobri que gostei de outras músicas que nem sabia ser deles. Mas Progress me obrigou a sair deste distanciamento. Sei lá, pode ser a idade, pode ser saudade do passado, pode ser tanta coisa inconsciente, mas o fato é que eu me rendi ao Take That. É muito bom ver que eles não pararam de amadurecer, apesar ou talvez graças aos tropeços do caminho. Não tem como negar que eles melhoraram, progrediram no melhor sentido da palavra. As pessoas ficam debatendo se Robbie ou Garry é o melhor e eu digo que isto é ridiculo. Todos são bons ao seu próprio modo e uma banda não é apenas um mas o somatório dos talentos de todos e até a cafajestice do Robbie agrega. Adoro o romantismo descarado do Barlow e sua voz perfeita. Nada disto tem a ver com o fato dele estar, sexy, lindo e inteiro. Será que isto significa que eu me tornei fã do Take That? Se a resposta for sim, bem, não me importo nenhum pouco de ter minha reputação destruida por isto.

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