Pra quê publicar, afinal?

A pergunta me veio depois de ler isto:

“Se recebemos dinheiro por nossa obra, tudo bem. Mas escrever para ganhar dinheiro é uma abominação. Essa abominação se paga com o abominável produto que assim se engendra.”

Quem diz isso é Ernesto Sabato, escritor argentino, em “O escritor e seus fantasmas“. Não tendo nada melhor pra fazer, resolvi pensar um pouco sobre o assunto. Mas bem pouco mesmo.

O que Sabato fala sobre “escrever para ganhar dinheiro” pode ser aplicado a outras profissões. É muito difícil encontrar alguém que faça bem feito qualquer tipo de trabalho se o tal trabalho for feito apenas por causa do dinheiro. Principalmente se for um trabalho artístico.

E então me perguntei, sem me restringir à questão “dinheiro”: por que diabos quero publicar, algum dia, um livro? Tenho algo de extraordinário a dizer? Sou um escritor genial? Não e não. Pra falar a verdade, minha ânsia em ser publicado já diminuiu muito. Quero, sim, publicar um livro, mas não tenho mais a pressa que antes tinha (tenho quase certeza de que já afirmei isso aqui outras vezes). Mas não quero publicar apenas para ser publicado. Lendo determinados livros, percebo que escritores que escrevem apenas para cumprir acordos editoriais – ou simplesmente para terem um livro novo na praça – não conseguem desenvolver um trabalho digno. Fica sempre a sensação de que a obra poderia ser bem melhor.

Digo tudo isso, mas, para escrever o livro dos meus sonhos, precisaria ou ter um trabalho bem tranquilo, ou não fazer nada além de trabalhar no livro. Ou seja: precisaria ter dinheiro sobrando para escrevê-lo, ou ser bancado por alguma editora. Se bem que tal exemplo não se encaixa no que Sabato diz. O livro que quero escrever é um projeto pessoal, algo que eu faria neste momento, se tempo tivesse, sem compromisso com nenhuma editora. É um livro que será publicado, um dia, mas com intenções bem mais nobres que apenas ganhar dinheiro.

Ganhar dinheiro com a escrita e “escrever para ganhar dinheiro” são coisas muito diferentes. Pena muita gente por aí não perceber isso.

This entry was posted in A vida como ela é. Bookmark the permalink. Post a comment or leave a trackback: Trackback URL.

2 Comments

  1. Posted October 3, 2007 at 06:08 | Permalink

    Rafael,
    Belo post. A premissa da assertiva do Sabato é, a princípio, correta, mas peca pela generalização e por uma certa arrogância. Há que considerar que muitas obras primas da literatura universal foram escritas por dinheiro. É o caso de boa parte da obra de Balzac, por exemplo, para citar apenas um. Estou defendendo que o bom escritor é aquele que escreve por dinheiro? Claro que não. Creio, apenas, que não é esse o critério que devemos empregar na hora de avaliar um trabalho literário, sob pena de colocarmos num mesmo saco escritores e livros os mais diversos. Do mesmo modo que grandes livros foram escritos por dinheiro, há outros que foram escritos por amor à arte e que são sofríveis e vice-versa. Conclusão: um livro só pode ser avaliado por meio da sua leitura. As motivações e métodos do autor são secundários. E, mesmo assim, cada livro terá um impacto diferente sobre cada mente, gerando as interpretações mais diversas, uma vez que um leitor ou crítico não pode abrir mão do lado subjetivo e emocional do seu julgamento, que é muito particular.
    Abraços!

  2. Rodrigo de Oliveira
    Posted March 16, 2008 at 17:25 | Permalink

    Creio que você, assim como esse Sabato, tem toda razão. Na verdade é preciso ter algo substancial a dizer, uma mensagem pessoal e verdadeira a passar para se dispor a escrever um livro de qualidade.

Post a Comment

Your email is never published nor shared. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

*
*