Onde está o erro? Na imprensa…

Você já deve estar por dentro da polêmica do momento, que diz respeito ao livro didático “Por um mundo melhor”, mas não custa resumir a história aqui (de forma bem sucinta, porque coisas como essa me tiram do sério): há, no livro, uma passagem em que os autores – a obra é assinada por vários autores, não foi escrita inteiramente pela professora Heloisa Ramos, como algumas matérias publicadas por aí fazem crer – explicam que há duas formas de se falar e escrever: a formal, que segue a norma culta da língua portuguesa, e a informal, que varia de acordo com o falante e tudo o que se refere a ele, como, por exemplo, classe social, nível de estudo etc.

Mas disso todo mundo sabe. Ou, ao menos, deveria saber. Acontece que, agora, uma boa parcela da imprensa e das pessoas – imagino que sejam aquelas mesmas que se colocaram contra a estação de metrô no bairro de Higienópolis, em São Paulo, com a justificativa de que ela traria “gente diferenciada” para o bairro – inventaram, produziram uma polêmica que, na verdade, é vazia, sem sentido; no fundo, é um factóide de quinta categoria.

Ao contrário do que dizem muitos, inclusive gente bastante inteligente, como Dora Kramer, jornalista respeitadíssima, os autores do livro não estão querendo ensinar a língua portuguesa com erros. O capítulo do livro que gerou a polêmica, ao contrário do que alguns dizem, não possui erros. Muito pelo contrário: de maneira perspicaz e muito esclarecedora, sem rodeios ou vocabulário pomposo, a obra explica aos alunos – o livro é destinado à educação de jovens e adultos – que existem duas maneiras de falar e escrever, como dito linhas acima, e que é necessário conhecer ambas para saber qual o momento certo para utilizar cada uma.

Para quem, felizmente, como eu, teve a sorte grande de ter professores excepcionais durante o curso de Letras – no meu caso, em especial o professor Iderval Miranda, talvez o melhor professor que já tive -, isso não é novidade alguma. Em algumas de suas aulas Iderval discutiu essa questão do “erro” na língua portuguesa. O assunto é polêmico, mas uma coisa aprendemos com ele – e é isso que os autores de “Por uma vida melhor” tentam ensinar: não se deve sair tachando de erro construções frasais sem antes analisá-las. Voltando ao que também já foi dito linhas acima: quem é o emissor do discurso, onde o discurso foi emitido, em que situação se encontra o emissor (entra aí, nesse caso, até mesmo situações de saúde, emoção, estresse ou mesmo teor alcoólico), enfim, observar tudo o que pode interferir no que foi dito ou escrito.

Em momento algum do capítulo em questão os autores dizem que é certo falar/escrever errado. Em momento algum eles ensinam a falar/escrever de maneira incorreta. O que eles dizem é que alguém pode falar – vou utilizar a frase que está lá, no livro – algo do tipo: “os livro ilustrado mais interessante estão emprestado” sem que isso seja tachado como erro, ou sem que seja realmente um erro, e sim algo ocasional, resultado de um ambiente em que não seja obrigatório falar de acordo com a norma culta.

Quantas e quantas vezes não já fui “cornetado”, digamos assim, por, estudante de Letras que era, falar algo do tipo: “pega os livro lá”, ou algo semelhante. Fazendo uma quase paráfrase com um verso de Rimbaud: não se é sério o tempo inteiro. Não se é culto o tempo inteiro. Ser sério e falar corretamente o tempo inteiro é um saco.

Fez-se uma polêmica em cima de algo que não existe. Inventaram um factóide que, felizmente, ao menos até o momento, aparentemente não prejudicou os autores. A editora Global, que publicou o livro, parece estar tranquila e apoiando os professores. O Ministério da Educação adotou uma postura bastante inteligente ao não interferir nessa questão.

A verdade é que a imprensa não tem o direito de deturpar o trabalho de uma equipe de professores da forma que fez. A imprensa não pode achar que é a dona de todas as verdades. Muito do que foi dito pela imprensa sobre esse capítulo de “Por uma vida melhor” é mentira. Eu não sou o dono da verdade, ninguém é. Mas basta ler o capítulo e fazer uma análise ponderada sobre o que está escrito para ver que não há nada lá. Aliás, há, sim: a atitude corajosa de uma equipe de professores em ensinar de forma aberta a nossa língua, e dar explicações de um assunto tido como chato de uma forma leve e muito precisa.

Parabéns aos autores de “Por uma vida melhor”. Que os alunos e professores que o manusearam tirem dele o máximo possível. Aproveitem.

***

Leia também:

Nota pública divulgada pelos autores da Coleção Viver, Aprender, da qual faz parte o livro “Por uma vida melhor;

Artigo da professora Heloisa Cerri Ramos, uma das autoras do livro, sobre a polêmica;

Artigo do mais que respeitado linguísta Marcos Bagno sobre o assunto.

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3 Comments

  1. Fabio Cardoso
    Posted May 18, 2011 at 09:22 | Permalink

    Ok, Rafael, mas nós dois sabemos que não se trata apenas disso, né? Digo, há muito tempo os cursos de Letras defendem a tese de Marcos Bagno de que não a norma culta é, na verdade, oculta. Nesse sentido, tomando como referência o “Preconceito Linguístico”, o que existe aí, nas entrelinhas ou filigranas, é um norte da inclusão social como alvo, não necessariamente uma proposta didática a fim de ensinar a norma padrão. De mais a mais, um erro é um erro, ué?

    Abraços,
    Fabio

    • Rafael Rodrigues
      Posted May 18, 2011 at 16:40 | Permalink

      Fabio, pode até ser que haja isso, mas o que a imprensa alardeou foi que o livro “ensina errado”, e isso é uma mentira clamorosa, como diria o glorioso Claudio Carsughi. O livro ensina os dois lados, fazendo o que, na minha opinião, é o mais indicado ou correto. Um erro é um erro, mas a coisa não é tão simples assim. É preciso ver a razão do erro, e saber o que é um erro realmente, o que é um escorregão e o que é a falta de uma educação de qualidade, ou mesmo falta de instrução mesmo. Abraços!

  2. Posted May 19, 2011 at 07:35 | Permalink

    boa 🙂
    obrigada pelos links.

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