O tabuleiro de damas

Quando me sento para escrever, desde menino até hoje, sou um principiante. Vou escrever alguma coisa que não sei o que seja, justamente para ficar sabendo. E que só eu posso me dizer, mais ninguém.

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Há algum tempo encontrei num caderno estas notas que tomei aos vinte anos:

Discplina – Ordem, obediência, humildade, lucidez e método.
Precipitação – Reflexão
Vaidade – Modéstia
Pressa – Calma
Distração – Atenção
Teimosia – Humildade
Egoísmo – Generosidade

Meio cabalístico, como se vê… Ou aristotélico, talvez. (Quando era estudante eu tinha mania de Aristóteles.) Logo abaixo, no mesmo caderno, encontro esta espécie de decálogo:

1. Falar menos, mais baixo e mais devagar.
2. Ouvir calado.
3. Pensar antes de abrir a boca.
4. Não contar casos, senão quando solicitado – e um só.
5. Não emitir opiniões, senão quando diretamente solicitado.
6. Não tomar a iniciativa.
7. Evitar as grandes demonstrações de cordialidade.
8. Levar tudo a sério, inclusive as brincadeiras.
9. Não querer parecer moço, engraçado, talentoso ou culto.
10. Andar mais devagar.

Devo confessar, e de bom grado, que não me lembro de jamais ter conseguido seguir uma sequer dessas decisões.

***

Quero dar o melhor de mim, ir ao extremo de mim mesmo. Não pretendo me exceder, mas também não quero ficar devendo. Esse é o meu objetivo na literatura e na vida.

Trechos de “O tabuleiro de damas“, esboço de autobiografia de Fernando Sabino.

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