O inverno da nossa desesperança

* Resenha publicada em 2006, no Argumento.net

Quando recebi “O inverno da nossa desesperança” (L&PM Pocket, 328 págs.), meu irmão estava por perto e perguntou:

“Que livro é esse?”

Falei o título e ele pediu para ver.

“Por que o nome do autor está maior que o nome do livro?”

Ora, eu disse. Porque trata-se de John Steinbeck, um dos maiores escritores do século XX, e qualquer coisa que ele tenha escrito merece ser lida, não importa o quê. Se bem que o título do livro é muito bonito.

“O inverno da nossa desesperança” foi publicado nos Estados Unidos em 1961. Um ano depois o autor foi premiado com o Prêmio Nobel de Literatura. Ao anunciar o vencedor, a comissão do Nobel declarou que, com este romance, John Steinbeck havia “reconquistado sua posição como um arauto da verdade”.

A essa altura, Steinbeck já havia publicado, entre outros livros, o clássico “Ratos e homens”, também um romance inigualável.

O protagonista e narrador (o romance é narrado em primeira pessoa, salvo alguns poucos capítulos) de “O inverno da desesperança” é Ethan Hawley, homem casado e pai de dois filhos, que vive na pequena e fictícia cidade de New Bayton.

Ethan é balconista da mercearia que pertencera à sua família, antes de seu pai perder todo o patrimônio dos Hawley, deixando para o filho muitas dívidas, o mercado e uma velha casa.

Para seguir sua vida e sustentar a família, Ethan vendeu o mercado para um imigrante italiano, o Sr. Marullo, e acabou sendo contratado como balconista.

Sempre demonstrando para os outros ser um homem bem-humorado (principalmente em casa, pois Ethan adora fazer sua esposa, Mary, rir; um dos apelidos dela é “dona ratinha”), Ethan Hawley tem conflitos internos como qualquer pessoa normal. Talvez até maiores, pois ele convive com o fantasma de seu avô, um rígido capitão do mar e com a lembrança dos tempos de ouro da família Hawley.

Além disso, seus dois filhos parecem ser crianças sem coração e sem piedade, pois perguntam mais de uma vez ao pai quando eles serão ricos de novo: “Ontem à noite mesmo, a Ellen me perguntou: ‘Papai, quando vamos ficar ricos?’. Mas eu não lhe disse o que sei: ‘vamos ficar ricos logo, e você que lida mal com a pobreza, vai lidar mal com a riqueza do mesmo jeito’. E é verdade. Na pobreza, ela é invejosa. Na riqueza, pode ficar esnobe. O dinheiro não transforma a doença, apenas os sintomas”.

Querem verdade maior do que essa?

Não foi por acaso que John Steinbeck ganhou o Nobel de Literatura com “O inverno da nossa desesperança”. Por trás do esforço de Ethan Hawley em sustentar sua família e melhorar de vida, há todo um conflito ético, do que vale ou não vale a pena fazer para se conseguir o que se quer. Além de o fato de que tudo gira em torno de um homem comum (como eu e como você, leitor), que se mostra como uma pessoa satisfeita, feliz e bem-humorada, mas que tem por dentro um caldeirão de sentimentos, angústias e desejos.

Eu sou Ethan Hawley. Você também pode ser um.

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3 Comments

  1. Thiago
    Posted March 28, 2007 at 17:09 | Permalink

    Mais um livro que você nos apresenta, e que vale a pena ser lido!
    Desculpe a ausência, mas a gripe me deixou muito mau…

    Abraços!

  2. Jonas
    Posted March 29, 2007 at 00:30 | Permalink

    Só lembrando que o título do livro é uma referência a Shakespeare.

    Abs

  3. Otto
    Posted April 25, 2007 at 20:13 | Permalink

    Olá, Rafael, eu queria saber se já chegou às suas mãos meu romance Jaboc (que foi lançado em Salvador em 7 de março, na Academia de Letras da Bahia).
    Se não, me dá o seu endereço que eu lhe mando um.

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