Movimento estudantil

Quando entrei na faculdade, em 2002, eu achava que seria muito legal me engajar no movimento estudantil. José Serra foi presidente da UNE, se não me engano, FHC também começou na política estudantil, se não me engano também, e uma série de outros políticos começaram deste mesmo jeito. Claro que eles não são exemplos a serem seguidos, mas eu tinha fé que poderia seguir no caminho certo e me tornar um político bom e honesto, e ajudar minha cidade e meu país.

Sabe quando você é jovem e tem aquela ilusão de que não apenas o mundo pode mudar, como também de que é você quem vai mudar o mundo? Pois é. Um então colega de sala – hoje nos chamamos de amigos, apesar de fazer um bom tempo que não o vejo – também queria seguir carreira política, e começamos a querer nos meter no movimento estudantil.

Digo até que fui longe. Participei de assembléias, fui representante da turma em alguma coisa lá que não me lembro, e fui suplente de um colega que foi delegado de alguma coisa num congresso estudantil que rolou lá. Na época desse congresso eu até já estava bem chateado com o movimento, mas ainda não decepcionado ou irado com ele. Foi por causa de uma assembléia em que expressei minha opinião sobre algum assunto que não recordo, contrária à opinião do pessoal que organizou a assembléia, que fiquei chateado. Depois desse dia, muita gente começou a me olhar atravessado e alguns até começaram a virar a cara para mim. Me viam e faziam de conta que não tinha me visto. Mas, como disse, isso não me deixou irado ou decepcionado. Fiquei só chateado, e achei todos uns bobos, por não respeitarem uma opinião contrária e tal. Mas todo mundo passa por isso uma vez na vida. E como eu já tinha passado muitas outras vezes antes, pelo fato de eu ser muito “do contra”, nem dei muita trela.

O que me deixou enfurecido foi, meses mais tarde, já fim de 2003, os estudantes entrarem em greve, por motivos totalmente relevantes. Essa greve fez com que o fim do semestre fosse empurrado para o início de 2004, quando eu estava de cama. Foi quando tive, ao mesmo tempo, dengue, rubéola e estafa.

Tinha ficado de fazer provas finais de três matérias. Não precisava de notas muito altas para passar, e estava muito tranquilo. Até saber que as finais coincidiram com a minha tripla enfermidade e que para provas finais a faculdade não aceitava atestado.

Acho que ninguém sabe o que é isso. Creio que ninguém tenha passado por algo semelhante.

Mas não é apenas por isso que tenho profundo ódio pelo movimento estudantil. Na verdade, é por tudo o que ele representa: baderna, violação de direitos e leis, desculpa pra aparecer e ganhar espaço na mídia, nem que seja a mídia de dentro da faculdade.

Não sou radicalmente contra o movimento estudantil. Sou contra a forma como ele vem sendo dirigido no decorrer dos anos. Não existe isso de greve de estudante. Não existe isso de aluno invadir a reitoria. Não existe isso de estudante ir para as ruas e parar o trânsito, atrapalhando meio mundo de gente que trabalha pra sustentar a família e tem horário a cumprir, pra protestar contra aumento de passagem de ônibus. Todo protesto pode ser feito de maneira civilizada, organizada e sem necessidade de arruaça.

Para mim, estudante tem é que estudar. Essa invasão que aconteceu na USP, por exemplo, é algo que não deveria ter ocorrido. O meu colega de site e acho que posso até chamá-lo de amigo, Eduardo Mineo, explica por que a invasão à reitoria não tem lá tanto motivo pra ter acontecido. Aqui também já aconteceu coisa semelhante, e eu fico me perguntando por que diabos um sujeito ou uma menina até bonitinha e inteligente fazem parte de uma ação desse tipo. Aliás, eu sei: é aquela ilusão de mudar o mundo, que falei alguns parágrafos acima.

Já disse um candidato a reitor aqui da universidade, pai de um amigo meu, aliás: “movimento estudantil tem que ser um só: da sala pra biblioteca e da biblioteca pra sala”.

Pois, meus jovens: envelhaçam rápido, como disse o Nelson Rodrigues. Envelheçam e percebam quão ridículos vocês foram, e tentem se redimir do erro. Ainda há tempo. Como disse o Renato Russo, temos todo o tempo de mundo.

This entry was posted in A vida como ela é. Bookmark the permalink. Post a comment or leave a trackback: Trackback URL.

2 Comments