Monteiro Lobato e o rascismo

Este post é só para recomendar a leitura do excelente artigo “Me convençam“, escrito por Alberto Mussa e publicado no jornal Rascunho de dezembro, sobre trechos racistas na obra infantil de Monteiro Lobato.

Concordo com e apoio veementemente Alberto Mussa. Temos o mau costume de repetir, como se fosse verdade, que nosso país não é racista nem preconceituoso. Tivemos, nos últimos meses, provas de que isso não é verdade, vide ataques a homossexuais em São Paulo e comentários contra nordestinos finda a última eleição.

Sou baiano, moro numa cidade do interior da Bahia, sou descendente de uma baiana e um paraibano. Tenho um orgulho inestimável de minha família – composta por negros e descendentes de índios, do lado materno – e abomino qualquer tipo de preconceito ou racismo, por mais que isso esteja na obra de um autor que admiro e respeito profundamente. Quem acha isso uma bobagem ou que preconceito não existe deveria abrir mais os olhos e esticar mais as orelhas, porque demonstrações disso estão por todo o lado.

Para finalizar, aí vai um trecho do texto de Alberto Mussa:

Faz tempo que chegou a hora de acabar com essa condescendência, com esse jeitinho, com essa moleza, com essa coisa morna de achar que discutir racismo no Brasil é bobagem, que vamos acabar virando americanos (como se nos outros aspectos não fosse precisamente esse o desejo da maioria das pessoas), que os negrinhos e negrinhas não vão ficar chateados, não vão se ofender, que eles sabem que todo mundo gosta deles, que essa história de burrice, de feiúra, de inferioridade é mais por força do costume, é só um modo antigo de falar, meio casual, meio acidental, não por querer.

This entry was posted in Posts avulsos. Bookmark the permalink. Post a comment or leave a trackback: Trackback URL.

6 Comments

  1. Denis
    Posted January 8, 2011 at 17:37 | Permalink

    Olá, Rafael, prazer em conhecê-lo! Digo isso, pois li agora e gostei de dois artigos seus, acredito que os primeiros que leio de você. O primeiro foi o link da home do uol sobre “Como aprender a escrever?”. O segundo foi esse, que me levou ao artigo de Alberto Mussa. Eu nem responderia para Alberto Mussa, pois confesso que esse único texto que li dele me convenceu de uma visão muito parcial em vários trechos. Em outro momento eu poderia aprofundar cada um desses trechos, mas agora gostaria de focar apenas no trecho destacado por você no presente artigo, um dos poucos que para mim tiveram um sentido razoável.

    Para pessoas esclarecidas, é óbvio que o nosso país é e sempre foi racista. Mas o racismo teve uma tendência de diminuição muito notável de décadas para cá. Só concordo que essa tendência ainda não seja nem para quase zero. Há um racismo “residual” atualmente mantido por pelo menos dois fatores interligados, que podem até ser considerados um só dependendo da conceituação. O da educação familiar e cultural é o mais fácil de entender, quase convicto e consciente. Esse tende a desaparecer, na medida que o segundo for combatido. Explico o segundo nesse restante de parágrafo: Não é preconceito, é estatístico e consequência do racismo histórico, que os negros e pardos estão proporcionalmente mais representados na parcela de menor renda da população brasileira. Isso reflete na percepção de que negros e pardos estão mais envolvidos com miséria, ignorância e violência. Esse fato, generalizado aos olhos de quem já tem uma influência ancestral de racismo, apenas reforça esse comportamento bizarro, mesmo que inconscientemente ou de forma culposa, no sentido jurídico da palavra.

    Portanto a solução converge para a mesma de sempre: Melhora de índices sociais e distribuição de renda. Essa solução é tão repetida e tão versátil para uma infinidade de problemas, que acaba sendo banalizada. Daí que eu levanto outro comportamento perverso, talvez até um terceiro fator do parágrafo acima, que é a desigualdade provocada pelo destaque exarcebado da proteção de parcelas historicamente reprimidas, como negros, homossexuais, mulheres, deficientes, etc. Também não vou prolongar aqui essa parte do assunto, já há muita discussão de como isso pode criar mais preconceito e racismo ainda.

    Vou concluir direto no assunto: Literatura clássica infantil tem que ser revista e reescrita de acordo com a época da edição. Mas sempre deve haver a versão integral, direcionada ao publico adulto, com as devidas notações. Isso é história, não podemos simplesmente escondê-la.

    Obs.: Estou avaliando o que escrevi acima, e me pareceu um leitura “pesada”, apesar de curta. Vou manter, pois eu tentei resumir muitas questões polêmicas em poucos parágrafos para explicar minha opinião sobre a questão do Monteiro Lobato. Foi até um desafio para o outro artigo, o do “Como aprender a escrever?” 🙂

    Saudações.

    • Rafael Rodrigues
      Posted January 9, 2011 at 00:33 | Permalink

      Denis, o prazer é meu, e espero que você se torne leitor assíduo aqui do blog!

      Sobre a questão da literatura, sim, é preciso mantê-la intacta para adultos, mas não para as crianças. É preciso intervir, sim. Sobre as questões que interferem e levam ao preconceito, não se trata apenas de questões econômicas e sociais. Muitas pessoas negras e com excelentes condições de vida relatam terem sofrido preconceito. O que há, no Brasil, é uma ridícula distinção por cor, e não apenas por classe social, além do preconceito contra homossexuais, uma questão de gênero. Como resolver isso é uma questão muito complicada. Porque não podemos dizer que é apenas melhorar educação e cultura. Afinal, se assim fosse, os Estados Unidos não seriam um país com tanto preconceito ainda, pois eles são mais instruídos e avançados que nós. Talvez eles tenham, nas séries iniciais, contato com literatura preconceituosa, como a de Monteiro Lobato em certos trechos, e parte da população branca carregue isso vida afora. Estou apenas conjecturando, não há como saber o real motivo disso. O que é certo é que é preciso combater o preconceito, venha de onde ele vier.

      Abraços e obrigado pela leitura atenta e pelo comentário!

  2. Denis
    Posted January 9, 2011 at 10:17 | Permalink

    Não quis dizer que o racismo se mantêm porque todo negro é pobre. Mas pela percepção subjetiva do fato que negros e pardos estão estatisticamente mais representados na parcela de menor renda da população brasileira, reflexo de nossa história secular.

    Uma parte expressiva, senão maioria do racismo atualmente no Brasil, é de difícil constatação. Vem daqueles que não se consideram racistas e não são conscientemente mal intencionados nessa conduta. São influenciados não só pelo exposto no parágrafo acima, como pela nossa ancestral cultura, ou talvez natureza, racista. Aliás: Negro nunca é/foi racista?

    Acabar como esse racismo de difícil tipificação criminal, é o grande desafio. Porque racistas convictos e plenamente atuantes são facilmente enjaulados atualmente. Mas acredito que esses sejam minoria. O importante é combater os mais “inconscientes”. Como?

    Eu acredito que melhora de índices sociais é a única solução sem sequelas e sem contra-indicações. Leis específicas para grupos sociais, redundantes com a CF, podem muito bem aumentar a discriminação. Cotas específicas também. Defender que criança tem que ler monteiro lobato na íntegra, também.

    Saudações.

    • Rafael Rodrigues
      Posted January 9, 2011 at 22:17 | Permalink

      Denis, vou bater na mesma tecla: se bons índices sociais ajudasse muito, os EUA não seria um país com preceonceito tão latente. É preciso identificar a raiz desse racismo, que talvez esteja nos livros utilizados nas escolas, e mudar isso.

  3. Denis
    Posted January 10, 2011 at 01:34 | Permalink

    Rafael, acho essa comparação extermamente simples, considerando contextos históricos, culturais e de miscigenação tão diferentes.

    E por bons índices sociais, eu considero uma educação moderna e ampla, o que não é uma qualidade de destaque dos estadunidenses.

    Nosso pior racismo, praticamente indetectável e sem punição, é o do empregador que contrata o que não é negro. Ou do garçon que evita atender a mesa onde só tem negros. Ou o médico que dá menos atenção ao paciente negro. São infinitos os exemplos. Como combater isso? Promover estatísticamente os negros e pardos para o mesmo nível social de brancos, através do investimento social (educação, saúde, reforma agrária, etc.) acabaria com a percepção que generaliza que negros estão mais próximos de miséria e violência. Precisamos neutralizar o efeito de seculos de racismo oficial. É claro que isso não seria nem notado a curto prazo.

    Também não acredito que num país onde as crianças (e adultos) leem quase nada, alguns poucos trechos de livros infantis sejam determinantes para a manutenção do comportamento racista de toda uma sociedade.

    Mas se não são determinates, somados a todos outros pequenos detalhes é que fazem a diferença. Acredito que são valorizando esses detalhes, e com discussões como essa, que vamos traçar um futuro melhor.

  4. Roberto Sampaio
    Posted April 27, 2011 at 11:08 | Permalink

    Quero aqui manifestar minha absoluta concordância com o que escreveu o Denis. Uma visão lúcida e calcada em argumentação consistente. Uma visão positiva e destituída de qualquer ranço que implique investimento na manutenção do preconceito, por um lado, ou na cultura do ressentimento, por outro. E tudo, é claro, sem qualquer espécie de modificação, “correções” ou censura a trechos de obras literárias, para que não retornemos às trevas!

Post a Comment

Your email is never published nor shared. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

*
*