Mas, então, o dia

Quando te conheci, quis de alguma forma me transformar em você. Pensava ser possível absorver tua essência observando tuas ações, lendo tuas palavras e ouvindo teus conselhos. Quem sabe, até, herdaria tua postura e teus trejeitos, que tanto admirava.

E por pouco isso não aconteceu. Você, em excesso, deixou-me embriagado. Tuas palavras, teus conselhos, tuas idéias, teus tudo grudaram em mim, deixaram-me tal como uma cópia tua, e eu já não era mais eu. Eu era você, e sequer me dei conta da mudança em mim.

Chegou a ser engraçado. Conversar com você era como se estivesse falando com um outro eu. E eu sabia todas as tuas palavras seguintes, pois já até pensava igual a ti. Foste não uma paixão, um amor, mas uma obsessão, uma doença. Fui um parasita em você. Não sentiste?

Mas, então, o dia. O dia em que talvez algum sino ou estalar de dedos tenha feito acordar meu eu de um profundo dormir. Meu profundo mergulhar em teu eu. Não, não foi um sino ou estalar de dedos. Foram palavras, palavras tuas, ditas para mim, ou para outro, já não sei, mas que chegaram a meus ouvidos (ou foram meus olhos que as viram?). Letras ouvidas por mim ditas por teus dedos? Talvez. E… não importa.

Importa que acordei, e me vi no espelho. Reencontrei a mim mesmo, pele nova, barba e cabelo grandes, necessitários de corte e tratamento. Eu era eu novamente. Porém, não mais cópia de ti, não mais refém de tuas palavras.

As mesmas palavras que um dia me encantaram e fizeram mudar de mim para ti, fizeram-me perceber que eu me basto a mim mesmo, e que tuas idéias só valem para ti quando a ti te convêm. Assim: tuas opiniões e palavras dependem de onde e com quem estás. Não sabes o valor de uma verdade ou de uma palavra concreta, palavra-viga, palavra-sustentação.

Não quero minhas palavras flexíveis, como papel toalha ao vento. Quero-as como árvores, porque fixas, enraizadas, mesmo que regadas por tantos e diferentes outros. Quando for o tempo, que sejam derrubadas (até por mim mesmo) e que dêem nascença a papéis, por onde outros possam escrever palavras mais fortes e verdadeiras que as tuas.

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2 Comments

  1. euler
    Posted October 18, 2007 at 13:07 | Permalink

    Perdão pela ousadia da intromissão, mas muito obrigado! Falaste, com arte e propriedade, exatamente o que eu estava precisando ouvir! Valeu e parabéns!

  2. Rafael Rodrigues
    Posted October 18, 2007 at 18:57 | Permalink

    Obrigado, Euler. De verdade. Abraço, Rafael

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