Mainardi sobre Capitu

A série Capitu tem um aspecto circense. É Machado de Assis encenado por Orlando Orfei. É Bentinho imitando Arrelia no picadeiro de Fausto Silva: “Como vai, como vai, vai, vai? Eu vou bem, muito bem, bem, bem”. Luiz Fernando Carvalho usa uma linguagem grotesca, afetada, espalhafatosa, cheia de contorcionismos e de malabarismos. Machado de Assis é o oposto. No livro Dom Casmurro, o relato de Bentinho é espantosamente seco e desencantado. Ele narra sua história apenas para combater o tédio: sem drama, sem sentimentalismo, sem teatralidade. Quando Bentinho descobre que o filho bastardo de Capitu com Escobar morreu de febre tifóide, ele comenta simplesmente: “Apesar de tudo, jantei bem e fui ao teatro”.

Diogo Mainardi, falando o que eu queria dizer sobre Capitu, mas não tive calma nem criatividade nem conhecimento suficiente para tanto.

This entry was posted in Citações, QI, TV. Bookmark the permalink. Post a comment or leave a trackback: Trackback URL.

8 Comments

  1. Posted December 15, 2008 at 17:07 | Permalink

    Sinto discordar, Rafael, mas Mainardi não entendeu lhufas da proposta de LFC. O narrador da série não foi o Bentinho machadiano, muito menos o Bentinho de Diogo Mainardi (ainda bem!). O narrador de “Capitu” foi o Bentinho de Luiz Fernando Carvalho, um Casmurro de olhar enamorado e nostálgico, que se martiriza pelo resto da vida por causa de uma paixão fracassada. Bia Abramo apontou isso notavelmente na sua crítica para a Folha de São Paulo (“Como o próprio Bentinho de 15 anos, Luiz Fernando Carvalho está apaixonado por Capitu. A grande ousadia do diretor nesta versão de “Dom Casmurro” não é a trilha sonora, ou a mistura de linguagens, ou a cenografia pop, mas, sim, a de se colocar como mais um narrador, tão caprichoso e interessado como qualquer outro narrador de Machado de Assis. Ele cria uma espécie de Carvalho-Bentinho, que se transmuta em Carvalho-Bento Santiago, acelerando ainda mais a instabilidade da narrativa machadiana”).
    Sinceramente, se prevalecesse a intenção de Diogo Mainardi, que se apropria até de Machado de Assis para fazer panfletagem anti-esquerdista, nós desgraçadamente teríamos assistido à versão da prima Justina para o romance. Uma versão neo-con e aborrecida.

  2. Rafael Rodrigues
    Posted December 15, 2008 at 22:56 | Permalink

    Ives, mas aí é que tá: tanto o Mainardi quanto eu e um monte de gente não gostou deste Bentinho do LFC. Respeito sua opinião e a de todos que curtiram, mas eu detestei o primeiro capítulo e nem assisti o resto.

  3. Lucas Mayor
    Posted December 16, 2008 at 09:28 | Permalink

    Pena. O RESTO foi a microssérie.

  4. Posted December 16, 2008 at 10:32 | Permalink

    Rafael, mas a graça está justamente aí! LFC praticamente criou uma nova interpretação para a saga de Bentinho, fazendo jus à proposta plurisignificativa de Machado de Assis. Para torná-la crível, não havia outra via que não a de uma ópera circense.

    Fidedignidade e purismo não combinam com o propósito de uma adaptação literária. Por isso, eu fico com o outro “monte de gente” que gostou de Capitu.

  5. Rafael Rodrigues
    Posted December 16, 2008 at 11:00 | Permalink

    Lucas, o RESTO foi a continuação do que vi e não gostei. Meu tempo é precioso demais pra ficar dando segundas chances a coisas que, para mim, não começaram bem. Ives, discordo veementemente disto: “Fidedignidade e purismo não combinam com o propósito de uma adaptação literária.”. Os melhores filmes baseados em livros que assisti foram aqueles que foram fiéis à obra literária. Mas, enfim, como você disse, foi o Bentinho do LFC, e não o meu. Mas continuo achando ridículo o Bentinho dele e concordando com o Mainardi. O legal é continuarmos respeitando as opiniões uns dos outros. Abraços!

  6. Lucas Mayor
    Posted December 16, 2008 at 11:30 | Permalink

    O RESTO foram os episódios 2,3,4 e 5.

    Abraços.

  7. Rafael Rodrigues
    Posted December 16, 2008 at 11:52 | Permalink

    Lucas, a continuação do que vi e não gostei “foram os episódios 2,3,4 e 5”, oras. Abraço.

  8. Posted December 16, 2008 at 14:33 | Permalink

    Rafael,

    Fidedignidade e purismo não são sinônimos de fidelidade. Mas é assim mesmo, cada um com seus gostos e idiossincrasias. Abraço!

Post a Comment

Your email is never published nor shared. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

*
*