José Saramago (1922-2010)

No fim de 2008 enviei um e-mail para o endereço eletrônico que consta no site/blog do escritor José Saramago, falecido hoje aos 87 anos. O motivo da mensagem era a solicitação de autorização para republicar, no Digestivo Cultural, um texto chamado “Uma certa inocência“, no qual ele fala sobre o autor brasileiro (e baiano!) Jorge Amado. Esse texto foi utilizado pela editora Companhia das Letras durante a divulgação das primeiras novas edições dos livros de Jorge.

Tive uma primeira resposta ao e-mail enviado. A pessoa informava que retornaria em breve, confirmando ou não a autorização. Este retorno, na verdade, foi o único. Talvez porque, se não me falha a memória, no fim daquele ano Saramago estava em trânsito, e pouco tempo depois viria a ser internado por problemas respiratórios. Acabei conseguindo a autorização para republicação com a própria Companhia das Letras.

Corta.

Quinta-feira, 17 de junho de 2010. Acordo e vou checar meus e-mails. Na caixa de entrada, uma mensagem do site de Saramago avisando que o diretor espanhol Pedro Almodóvar e o ator também espanhol Javier Bardem participaram de um vídeo feito “para denunciar la impunidad del franquismo”. (A mensagem veio em espanhol.)

Repliquei o link no Twitter e depois fui ao site do Saramago, ver as últimas atualizações. Acabei “descobrindo” que foi publicado recentemente na Espanha um livro seu chamado “Democracia y universidad“, que desde já espero ser editado por aqui. Depois de ler um pequeno trecho de divulgação da obra, pensei, por que não?, em tentar fazer uma pequena entrevista por e-mail com o autor, que seria publicada aqui no blog. A mensagem foi enviada às 11:09 da manhã de ontem.

Ela, hoje, é como uma piada ridícula e sem graça.

***

Li Saramago há alguns anos, em 2004. Lembro claramente de estar deitado no sofá, lendo avidamente “Ensaio sobre a cegueira”, e por causa disso chegar atrasado no trabalho: eu simplesmente não queria parar de lê-lo. Ao terminar de ler o livro, ficou aquela sensação estranha de completude e, ao mesmo tempo, vazio. Por um lado, ali estava mais uma daquelas obras que te fazem enxergar melhor o mundo; por outro, ali estava um romance que simplesmente tira o teu chão durante dias ou semanas. Tive a mesma sensação apenas com alguns poucos livros. Que eu me lembre agora, foram eles “O estrangeiro”, de Albert Camus; “Crime e Castigo”, de Dostoiévski; “O encontro marcado”, de Fernando Sabino; e “O processo”, de Kafka. Eu poderia dizer que são esses quatro romances, mais “O ensaio sobre a cegueira”, os livros de minha vida.

Tentei ler, sem sucesso, “O Evangelho segundo Jesus Cristo” e “Memorial de convento”, mas ainda assim comprei algumas obras do autor: “Ensaio sobre a lucidez” e “As intermitências da morte”. Mais recentemente comprei “O homem duplicado”, “As pequenas memórias” e “O caderno”, sem falar que tenho aqui “O ano de 1993”, livro gentilmente a mim cedido pela Companhia das Letras mas canalhamente não resenhado (ainda; mea culpa, mea maxima culpa). Confesso, não sem alguma vergonha, que nenhuma dessas obras foram lidas, até o momento. Porque alguns leitores têm esse estranho hábito de comprar livros não para serem lidos imediatamente, mas para tê-los por perto. É claro que folheei todos eles e, se os adquiri, foi exatamente por isso. Não lê-los é um mero detalhe – isso para a estirpe de leitores que cultivam o referido estranho hábito. O importante, para esses leitores (quantos serão?), é ter, mais do que os livros, determinados autores por perto.

No momento, estou cercado de Saramago. Há um do meu lado esquerdo, dois do meu lado direito, um à minha frente e três atrás de mim. Ele se foi, mas, ao menos para mim, continua aqui.

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10 Comments

  1. Posted June 18, 2010 at 12:43 | Permalink

    Comigo, são dois!
    Tenho três saramagos perto de mim, e eles me olham, desafiadores, pedindo para ser lidos. Saramago morreu sem entender a pergunta “pra quê tudo isso?”. Espero que nós também nunca a entendamos.

    Bonito texto, Rafael.

  2. Posted June 18, 2010 at 16:02 | Permalink

    Lindíssimo texto, querido editor!
    E como a sincronicidade pode ser bizarra, né? 🙁
    Até chorei um pouquinho depois de te ler.
    Beijos

  3. Celina
    Posted June 18, 2010 at 17:39 | Permalink

    Conte três, comigo! Saramago, Virginia Woolf, James Joyce…

  4. Posted June 18, 2010 at 19:26 | Permalink

    Eu almoçava quando soube a notícia do Saramago. Num instante, a comida perdeu o sabor e eu parecia degustar de uma pasta insossa. Foi um momento de pesar e silêncio, mas tive de partilhar minha dor com sua ida. Belo texto, Rafa.

  5. Posted June 18, 2010 at 20:02 | Permalink

    Sabe quando o peso da notícia vem sobre você de maneira intermitente? Pois é, nunca imaginei que Saramago partiria assim, de repente, quieto… Sempre imaginei um mundo de possibilidades, porque ele sempre foi mestre nisso…nas possibilidades. E mais uma vez ele preferiu nos surpreender, nos dando a impressão de que, realmente, o fim é só mais um mero detalhe.

  6. Pilar
    Posted June 18, 2010 at 20:45 | Permalink

    Realmente, notícia triste essa de hoje…

    “Conheci” Saramago na Faculdade, em 1996, quando li “O ano da morte de Ricardo Reis”. Ainda é um dos meus livros preferidos. Hoje vejo ele todo marcado, rabiscado, com anotações que são quase diálogos.

    Tentei ler outros, sem sucesso também. E em 2006, li “As intermitências da morte”, que não achei tão genial quanto o primeiro.

    Apesar de não ser dos livros mais badalados, “O ano da morte…” é uma obra-prima por várias questões estéticas, narrativas… existenciais. Nele, Saramago extrai algo novo da obra do Fernando Pessoa. Vale a pena incluir esse na sua estante.

    ;o)

  7. Rafael Rodrigues
    Posted June 18, 2010 at 22:32 | Permalink

    Obrigado pelos comentários, pessoal. Mariana, enquanto eu escrevia, quase choro também. Pilar, vou deixar registrada sua dica aqui, obrigado, mineira! 😉

  8. Posted June 19, 2010 at 21:33 | Permalink

    Talvez, agora, vai-se descobrir o gênio que era o Saramago. Mas ele verdadeiramente o era. Um escritor que sabia, como poucos, manusear as palavras, como se somente dele fossem dependentes e a ele somente as pertencesse. De um estilo único e inigualável, fez provocações ao homem, fazendo-o pelo menos pensar, principalmente sobre Deus e a igreja. Desse modo, Azinhaga, que era tão pobre quando por lá ele nasceu, herda suas lembranças póstumas e tão ricas. Sem este José, portanto, o mundo fica menos crítico, e sem este Saramago, fica mais cego e desassistido. Mas quem sabe possamos encontrar Blimunda e Baltazar Sete-Sóis de mãos dadas por aí…

  9. Posted June 21, 2010 at 11:44 | Permalink

    Pois é, Saramago… Me apaixonei por ele quando li, ou engoli, posto que só consegui parar de ler ao terminá-lo, O ensaio sobre a cegueira. Lembro-me que a primeira página precisei ler duas vezes pra compreender a maneira como havia sido escrito. Depois disto foi um mergulho sem volta. E foi apenas o primeiro. Depois disto resolvi criar um jardim pra viver porque o mundo anda muito estranho. Depois disto a nitidez das imagens me pesava. Depois disto tantas coisas… Saramago é destas criaturas que sacodem os internos, não é mesmo? Que o mundo perdeu um grande escritor, isto é sabido, mas aí estão as suas marcas e elas não ficaram no vazio. Não para muitos de nós. 😉

  10. Posted June 24, 2010 at 03:22 | Permalink

    olá, gosto muito como vc escreve. Encontrar leitores e cinéfilos que amam ser leitores e cinéfilos está cada vez mais difícil.

    e Saramago também é um dos escritores da minha vida.

    Um abraço.

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