Confissões, de Somerset Maugham

Nas últimas semanas adquiri alguns livros que imagino serem fundamentais para minha formação como leitor – e, não adianta querer esconder, como crítico literário que desejo ser algum dia. Um deles, o que mais me surpreendeu, foi “Confissões“, um livro de apontamentos ou reflexões (não uma autobiografia nem um livro de memórias, segundo o autor) do escritor – francês de nascimento, britânico de escrita – William Somerset Maugham.

Folheando o livro na livraria – aquela mesma, onde lancho quase todos os dias -, fui quase que direto nas páginas onde estão os trechos abaixo.

“Eu tinha muitas desvantagens. Era baixo; possuía resistência mas pouca força física; gaguejava; era tímido; tinha pouca saúde. Não tinha facilidade para os esportes, que desempenham papel tão importante na vida normal dos ingleses; e tinha, não sei se por alguns desses motivos ou de outra natureza que desconheço, uma instintiva repulsa pelos outros homens que me tornava difícil entrar em qualquer familiaridade com eles. Tenho estimado indivíduos; nunca me importei muito com os homens em geral. Nada tenho dessa aliciante predisposição que faz com que as pessoas se falem no primeiro encontro. Embora com o decorrer dos anos tenha aprendido a assumir um ar de simpatia quando forçado a entrar em contato com um estranho, jamais gostei de ninguém à primeira vista. Não creio que algum dia me tenha dirigido a alguém, que eu não conhecesse, numa viagem de trem, ou falado com um passageiro a bordo, a menos que eles tivessem falado primeiro comigo.”

“A crítica, a meu ver, é uma coisa pessoal, mas nada impede que o crítico possua uma grande personalidade. É-lhe perigoso considerar a sua atividade como criadora. Seu papel é guiar, avaliar, indicar novos caminhos de criação, mas, se ele se julgar um criador, ficará mais preocupado com a criação, a mais absorvente das atividades humanas, do que com as funções que lhe são próprias.”

“Um dos motivos da inutilidade da crítica atual é que é feita como um ‘bico’ por literatos criadores.”

“O crítico deve ter paciência, firmeza e entusiasmo. Cada livro que lê deveria ser uma nova e sensacional aventura; julga-o com a universalidade do seu conhecimento e a força da sua personalidade. Na realidade, o grande crítico deve ser um grande homem.”

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4 Comments

  1. Renata Miloni
    Posted November 21, 2007 at 02:46 | Permalink

    Você não deve ter lido o decálogo do crítico que o Michel Laub fez, né? É nojento.
    http://www2.uol.com.br/entrelivros/reportagens/decalogo_do_leitor_5.html

    Aí eu venho aqui, leio esses trechos e penso que brasileiro é um bicho idiota mesmo.

    Acho que quero dizer que você está lendo os livros certos dos autores certos.

  2. Rafael Rodrigues
    Posted November 21, 2007 at 09:23 | Permalink

    Eu tinha lido, Renata. Não é nojento. É que simplesmente não é um decálogo do crítico, e sim um texto escrito pelo Laub e que foi dividido em dez tópicos. Se você for levar à vera mesmo, só há um ou dois conselhos que mereceriam constar em algum “decálogo do crítico”. Se bem que eu não sou muito chegado a essas coisas. Decálogos não resolvem nada. Os Dez Mandamentos não resolveram, imagine decálogos…

  3. Renata Miloni
    Posted November 22, 2007 at 03:36 | Permalink

    Chamo de decálogo porque a revista publicou assim. hehehe Mas penso exatamente como você: aquilo é um texto dividido. Ah, eu acho nojento o cara ser convidado para escrever o que considera essencial para um crítico e levar na brincadeira. Não sei como publicaram aquilo como conselhos aos críticos.

    O decálogo do leitor é bom. Mas eu acho que quem decide os “conselhos” (por que isso é tão necessário o tempo todo? nunca entendi) são as próprias pessoas, não um escritor apenas. É mania, né? Essa coisa de listar tudo.

  4. Rafael Rodrigues
    Posted November 22, 2007 at 19:40 | Permalink

    Não acho que o Laub tenha levado na brincadeira. Ele só não acertou a mão. E conselhos são bons, Renata. Mas depende muito de quem os dá. Beijo!

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