Carta a S.

S., estou pensando muito no que você disse. Sei que não é essa a sua intenção, mas me veio à cabeça algumas reflexões sobre o suicídio. Aliás, reflexões, não. Apenas algumas lembranças do que já ouvi dizer por aí. Uma vez alguém falou que o suicida é um covarde, pois tirar a própria vida é a saída mais fácil para se livrar dos problemas, sejam eles quais forem. Não acho isso. Minha opinião é a seguinte: para cometer suicídio, o indivíduo precisa ter uma coragem enorme, até porque corre o risco de não obter sucesso, o que é bem pior. É capaz de a pessoa ficar deprimida, depois de se dar conta que nem se matar conseguiu…

Mas, e agora cairei em contradição, o suicídio parece mesmo uma saída fácil, apesar do que eu disse acima. Afinal, ir embora e deixar tudo para trás é uma fuga. E a fuga, S., alguém já disse (dizem coisas demais, as pessoas, não?), é um ato de covardia, sim. Você pode me dizer que, em alguns momentos, não há mais forças para seguir em frente. E te digo o seguinte: há momentos em que você acha que não há mais forças, em que tudo parece perdido. Mas, se você parar um pouco, respirar fundo, lembrar de onde você veio, quem você é e para onde você quer ir, verá que você é maior que todos os problemas que surgem em tua vida.

Não olhe ao seu redor, S.. Não se compare com quem está à tua volta. Vê o sofrimento do teu irmão, na rua. Vê a dificuldade que tem o deficiente. Vê o que eles precisam suportar e superar. Depois, encare você mesma no espelho. É difícil, eu sei. Você vai me dizer que cada um tem seus próprios fantasmas. E eu não quero, de forma alguma, minimizar teus percalços. Mas, por favor, me entenda: o que quero dizer é que você tem condições de superar tudo o aconteceu contigo e o que está acontecendo agora. Você tem tudo para trilhar um belo caminho e precisa ser mais egoísta, pensar mais em você mesma e não se deixar abalar tanto pelos outros. Você precisa se amar mais, S.. Esqueça os amores que passaram por tua vida. Se eles não ficaram, é porque não deveriam mesmo ficar. Tudo na vida é aprendizado. Tire as lições necessárias dos seus sofreres, mas não os fique remoendo, cultivando. Sofrer é bom. Mas esquecer – ou não lembrar – também é bom. Nenhum sentimento é eterno, S.. Até o amor, com o tempo, deixa de ser amor. Ao menos o amor que conhecemos agora. O tempo passa, envelhecemos, e o amor se torna uma combinação de outros sentimentos: respeito e carinho.

Então, S., eu te peço: tenta esquecer o que passou. Pense em você e continua teu caminho. Não se dê por vencida. Você não pode se dar por vencida. Você não pode dar aos outros a oportunidade de te verem desistir. Você tem que voltar a ser você, S.. Ou, se necessário for, deixar de ser você. E se transformar em uma outra, mais ambiciosa, mais forte e mais egoísta.

Espero que você me entenda. Eu só quero o teu bem, S.

Com os sinceros sentimentos do teu amigo de sempre,
R.

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One Comment

  1. Posted February 7, 2008 at 08:39 | Permalink

    Letras tão próximas “R” “S”…

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