A luz que vem de fora

Sei que não sou perfeito. Ninguém é. Todos têm seus defeitos, e isso é normal. O meu é não querer conviver sob o mesmo teto com ninguém. Quando um homem e uma mulher resolvem morar juntos, vêm à tona detalhes que antes eram escondidos – propositalmente ou não. Isso não é uma desculpa de alguém que não quer se comprometer com alguém. É a mais pura verdade.

Eu até tentei. Mas não deu certo. Aconteceu assim:

Um belo dia, resolvemos morar juntos. Isso foi em julho. O casamento seria realizado em dezembro do ano seguinte. Nos primeiros meses convivendo juntos tudo correu bem. Mas, aos poucos, os detalhes tão pequenos de nós dois, com o perdão da citação deveras piegas, mostraram-se maiores do que a paciência para aturar as nossas particularidades, digamos assim.

O meu acordar tarde nos fins de semana a incomodava, pois ela preferia sair cedo para resolver as pendências de casa. Meu sono, que só se apresentava altas horas da madrugada, também não a agradava. Ela não conseguia dormir tranqüila sabendo que eu estava na sala vendo tv. Coisas.

Dela vinha a rigidez e a cobrança, pois queria que eu me adequasse às convenções sociais. As besteiras que tentei toda a vida resistir, tais como fazer a barba, cortar periodicamente o cabelo, comparecer a comemorações e reuniões de amigos, entre outras coisas que não gostava de fazer. A mim me bastava ficar em casa, fazer o deve ser feito quando se pode fazer, sem pressa, sem horários marcados. Podem me chamar de anarquista, mas não chega a tanto.

O reflexo do que nós somos pode ser visto no que fazemos. Ela, professora de colégio, eu, escritor. Para ela, sou o típico aluno irresponsável. Me disse isso uma vez. Ou várias vezes, já nem sei mais.

E o reflexo de todas essas coisinhas que começaram a virar motivo de antológicas discussões, pôde ser visto em uma manhã, que aparentava ser como qualquer outra. Ela sairia cedo de casa, e eu ficaria deitado até perto do meio-dia, como sempre.

Na noite anterior, tínhamos discutido mais uma vez. Eu deixara pra fazer, em cima da hora, uma compra que ela pedira há dias. A demora não a prejudicou em nada, mas, mesmo assim, ela não deixou de reclamar. De nada adiantou dizer que ela estava fazendo tempestade em copo d’água e que nada do que estava falando tinha lógica, pois tudo estava comprado e ela não precisava de nada antes daquele dia. Ela retrucou dizendo que eu poderia não ter achado os produtos. O que ela ouviu foi o seguinte: “se eu não achasse, eu iria até no inferno comprar isso, pra você não me encher o saco”.

E fui dormir. No quarto, é claro. O sofá é para os fracos.

Na já citada manhã seguinte, ela não foi para o colégio. Ficou meio-deitada, encostada na cabeceira da cama.

Se a conheço bem, ela ficou roendo as unhas por um bom tempo. E depois de quase comer os próprios dedos, abraçou as pernas e ficou olhando para a janela aberta e descortinada. Isso para forçar o meu acordar. A luz vinda de lá sempre me incomodou.

Depois de acordar e passar algum tempo fingindo estar dormindo, olhei as horas e estranhei-a ainda ali, ao meu lado. Perguntei o que houve e por que ela não saíra para trabalhar.

Disse-me que, enquanto eu estava dormindo, ficara acordada ouvindo o rádio, e perguntou-se, apenas uma vez, o que eu poderia estar sonhando. Depois percebeu que, para ela, a resposta já não importava. Ela simplesmente não se importava mais comigo, com o que eu pensava ou com o que eu sonhava. E então concluiu: já que tudo havia se tornado um inferno, era melhor colocar um fim na nossa história. Caso contrário, ela perderia o controle de si mesma. Estava a um passo disso, disse ela.

Eu, acordado daquela maneira, com a luz do sol a incomodar meus olhos, não tive reação. Pensei até estar sonhando. Ela percebeu isso e perguntou se eu a estava ouvindo. Perguntou se eu havia esquecido o que acontecera.

Era agosto. Três meses nos separavam do nosso casamento. Três meses para o passo final.

O rádio ainda tocava e eu mal via seu rosto, tão incomodado que estava com a luz forte vinda lá de fora. Ela sabia de cor as palavras que eu poderia dizer ali, naquele momento. Todas as promessas que um homem alquebrado como eu poderia lhe fazer.

Eu também sabia disso. Mas sabia que o melhor a fazer era levantar, arrumar minhas coisas, abrir a porta e ir embora.

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3 Comments

  1. Posted December 2, 2007 at 16:03 | Permalink

    Muito bom, mesmo tendo provocado esta desconfortável identificação, ou talvez por esta mesma razão…

  2. Maíra
    Posted December 3, 2007 at 12:45 | Permalink

    Lindo texto. Sensível como as relações devem ser..
    ou como o amor é

  3. Posted March 19, 2009 at 00:55 | Permalink

    Bem, como pediste opiniões sinceras, e sei o quanto isso é realmente importante pra nós escritores sedentos por opiniões de leitores, vou falar exatamente oq achei sobre teus contos: nesse conto achei o início meio morno, mas assim que li os parágrafos seguintes me senti fisgado pelo texto. Tá bem escrito, com boas descrições, e o mais importante na minha opinião: uma narração convincente; o texto ao longo da história transmiti veracidade e identifica-se com a realidade de muitas pessoas… me fez imaginar o exatamente o que temo no futuro rsrsrs

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