A humilhação, de Philip Roth

O impacto que um livro pode causar a alguém muitas vezes depende do estado de espírito do leitor, do momento de vida que ele está atravessando. No caso de ser um período conturbado, é possível até mesmo que uma pessoa não consiga continuar lendo determinadas obras, afinal, alguns livros exigem um pouco mais de atenção que outros.

E era mais ou menos essa a situação do blogueiro: ele não conseguia ler nada do começo até o fim. Para agravar a situação, além de não conseguir ler, também não conseguia escrever – ao menos nada que não fosse ficção.

Talvez culpa dos seguidos estresses pelos quais passou, apesar de nesse período ele ter uma grande alegria, que foi o lançamento de seu primeiro livro. Que foi muito gratificante, mas também  bastante desgaste.

Mas mesmo depois do lançamento ele não conseguia ler nem escrever. E aquilo o martirizava. Perdeu a conta de quantos livros começou a ler e não seguiu em frente. E perdeu também a conta de quantas ideias para textos ele teve e não colocou no papel, nem na tela do computador.

E então chegou o dia crítico. O dia em que ele chegou ao fundo do poço, para utilizar uma expressão bem gasta. Foi também aí que ele deu a si mesmo um ultimato: ou começaria e terminaria a leitura de um livro naquele dia ou desistiria de tudo o que estivesse ligado à literatura. Um exagero, claro, mas um exagero necessário.

Porque já era noite e não poderia dormir muito tarde, resolveu tirar da estante um livro curto. Escolheu “A humilhação” (Companhia das Letras, 2010, 104 págs.), de Philip Roth, que ele havia comprado há mais de um ano, porém não havia lido ainda – como tantos outros exemplares de suas estantes.

O protagonista de “A humilhação” é Simon Axler, um ator, um grande ator, que está passando por uma crise: ele não consegue mais atuar com competência. Ele perdera sua capacidade de interpretar, e isso faz com que ele entre em depressão, ou algo próximo disso.

O blogueiro logo se identificou com o personagem. Ora, ele era um leitor, um resenhista, e perdeu sua capacidade de ler e resenhar. E cada vez mais estava triste por isso. Ele era o próprio Simon Axler.

Após quase cometer suicídio, Axler resolve se internar em uma clínica psiquiátrica. Os vinte e seis dias que passa internado não resolvem seu problema, porém ele começa a se sentir um pouco melhor, menos deprimido do que estava antes. Volta para casa e passa os dias recluso, voltando a apresentar um quadro depressivo. Até o dia em que recebe uma ligação de Pegeen, filha de um casal amigo seu, que agora estava (Pegeen) morando perto dele. Em pouco tempo os dois se tornaram um casal, ainda que a diferença de idade entre eles fosse maior que vinte anos.

No início Pegeen trouxe alegria à vida de Axler. Ele não voltou a atuar, mas ao menos não estava deprimido como antes. Não demorou muito, porém, para que o relacionamento começasse a ter alguns problemas.

Pegeen era lésbica e vivia com a decana da faculdade na qual lecionava. Poucas semanas depois de conseguir o emprego ela terminou esse relacionamento e, pouco tempo depois, estava envolvida com Axler – seu primeiro relacionamento heterossexual em mais de vinte anos. Nessa caso, o problema é que a decana passou a “perseguir” Pegeen. Além disso, os pais dela, quando souberam da relação entre a filha e Simon, não ficaram muito contentes com a situação.

Enquanto e apesar disso, Simon Axler se afeiçoava cada vez mais a Pegeen. Entretanto, a recíproca, para ele, parecia não ser verdadeira, e Simon começava a temer pelo pior: ser abandonado por sua amada. Mais: ser trocado por outra mulher.

“A humilhação” não é um livro animador, redentor, com final feliz. Nada disso. Fala sobre a perda de uma habilidade, de um dom, e também sobre a velhice e tudo o que ela acarreta (este último tema tem sido frequente em alguns dos últimos livros de Roth). Porém, pouco depois do início do livro, o agente de Simon Axler, na tentativa de convencê-lo a voltar a atuar, faz um discurso digno de um livro de autoajuda:

“As pessoas esbarram em obstáculos por motivos que ninguém entende. Mas o obstáculo é só temporário. Ele desaparece e você segue em frente. Não existe nenhum ator de primeira que nunca tenha se sentido desanimado, no fim da linha, incapaz de sair do buraco em que se enfiou. Não existe nenhum ator que nunca tenha parado no meio de uma fala sem saber onde estava. Mas cada vez que você sobe no palco você tem uma nova oportunidade.”

As palavras do agente não convencem Axler, mas “A humilhação”, apesar de contar uma história triste com um fim trágico, trouxe alguma esperança para o nosso blogueiro. Afinal, ele conseguiu terminar o livro, e voltou também a escrever não ficção, reativando o blog que estava desatualizado já há algum tempo.

É como ele ouviu alguém dizer, ou leu em alguma entrevista: a salvação está nos livros…

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4 Comments

  1. Posted October 16, 2011 at 14:53 | Permalink

    Jóia, Rafael! Eu adorei Complexo de Portnoy, me inspirou inúmeras ****** [termo suprimido pelo blogueiro; leia-se “masturbações”] na adolescência!

    É um livro que faz parte do meu corpo.

    Recomendo também, nessa linha: O Pássaro Pintado, de Jerzy Kosinki (que tem excelentes cenas de estupro, que deve ser sempre uma fantasia, claro) e O Amante de Lady Lawrence (que tem cenas de sexo muitíssimo inspiradoras e inspirou filmes inspirados).

    Abs!

  2. Posted October 16, 2011 at 14:54 | Permalink

    De D. H. Lawrence

  3. Posted October 17, 2011 at 12:29 | Permalink

    Uai, Rafael, masturbação não pode? Eu sou da geração Martha Suplicy, em que masturbação era autoconhecimento!!!

    Abs!!!

  4. Posted October 17, 2011 at 12:29 | Permalink

    Sua geração aboliu a masturbação literária, agora existe a webcam

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